28 fevereiro 2011

Estórias do Cubal. Ao Senhor Fernando Carona, por Carlos Canais

Sr.Fernando Carona
Meu Caro amigo, sempre te vi como um grande Senhor, porque tu eras maior que o resto da malta desse tempo e metias respeito!...sabes, talvez antes de teres vindo ao mundo (eu tenho 65 anos, no Cubal existia a Lei do Mais Forte). Tal e qual, portanto tu com certeza nasceste uns anitos depois, e então desconheces estes pormenores. Quem chegasse à nossa terra, tinha de ser testado da cabeça aos pés e havia sempre um chefe da manada que tinha essa função, testar os maçaricos. Comigo assim aconteceu e a vários níveis (caramba, arranjo sempre estórias), começando logo na escola quando cheguei ao Cubal pela 2ª vez em 1957 (a 1ª foi em 1947). Então tinha uma colega no colégio do Vitor Ribeiro da Silva que era a Marília Moreira (não sei se se recordam desta senhora), por acaso é quase minha vizinha também hoje, e como ia a contar, a mesma já me conhecia de Benguela, onde éramos mesmo vizinhos,e então a nossa amiga notou que eu não fui ao intervalo das aulas e por isso chamou-me de imediato à atenção, dizendo: Carlos, tu tens de ir jogar futebol ao intervalo das aulas, porque senão há um Senhor lá fora que te vai bater...eu achei imensa graça ao que ela acabara de dizer e comecei a rir, mas ela insistiu e eu tive de deixar a sala de aulas e saí como estava determinado. Quando coloquei os pés na rua, já havia por ali uma pequena confusão, que não entendi e nem estava para isso. Mas, e há sempre o maldito "mas", alguém se acercou logo de mim a perguntar-me se sabia jogar à bola...assustei-me com a "violência" que aquela pergunta me tinha sido dirigida, e de repente lembrei-me o que o bela da Marília me tinha dito, e respondi de imediato "SIM", e lá fomos jogar à bola. Azar do adversário,porque para se fazer a escolha deste jogador desconhecido, houve um certo burburinho, mas como estava o Manel do outro lado da equipa que ganhava sempre, o novo podia jogar pela equipa mais fraca. Bom, foi o bom e o bonito, porque os mais fortes não se entendiam e começaram na zaragata uns contra os outros. "Grande rivalidade" entre estas equipas, pensava o pobre do Canais, pois eu não me percebi de inicio que o problema já se estendia cá para o meu lado. Já estava a meter golos demais e não sabia é que tinha a culpa de não ter sido escolhido para a equipa que estava a perder...eles não tinham culpa de nada daquilo, pois desconheciam que eu já tinha jogado futebol infantil no Portugal de Benguela, por três épocas, mas não chegaram a saber deste pormenor, porque acho que naquele momento iam querer partir-me ao meio para deixar de haver confusão. Resultado, ganhámos por 6 -0 à equipa do Manel, e isso foi uma grande ofensa. Resumindo contei mais uma estória, só para explicar ao Carona porque o chamei de Senhor. O Manel naquela altura parecia o pai do resto do pessoal, pois era grande como tu e parecia um touro a bufar durante os encontros de futebol, que por acaso se realizavam da parte debaixo do adro da nossa igrejinha onde pontificavam as árvores, mas nós aproveitávamos esta situação porque para além de as fintarmos também fintávamos os adversários, quando antes não chocávamos contra as elas. E comecei a ter respeito pelos GRANDES. Está assim explicado o meu "trauma", Sr. Carona. Bom já deves ter entendido que isto foi mais um argumento para o Canais contar mais uma estória dos VELHOS TEMPOS.
Um abraço do Canais.

Outras estórias cubalenses, Por Carlos Canais

Aos Cubalenses
O meu amigo Eduardo que me desculpe, mas desta vez não vou comentar a linda narrativa que acabou de oferecer à "terrível" professora Olga, mas tão só contar também a minha estória, que por ironia do destino também faz parte o mesmo actor o Sr, Fernando Carona.
Eram uma vez três heróis que numa longínqua noite do ano de 1970, resolveram fazer uma caçada nocturna. Acontecia que o mais velho necessitava de arranjar alimento para os seus cães que aquela data se encontravam em casa do Sr Mário Paulo, familiar do Sr.Celestino e Arlete Guerra que bem conhecem concerteza. Combinámos sair por volta das 22 horas e arrancámos em direcção ao morro do Tumba, localizado por detrás da Fazenda Elisa. Ao chegarmos perto do local, notámos que alguém andava tal como nós a passear na noite Africana. Bom, por este motivo parámos quando circulávamos próximo de uma Fazenda de Sisal. Eu tinha deixado a guerra cerca de seis meses antes e por este motivo senti-me na obrigação de proteger os meus colegas de aventura e disse simplesmente para nos abrigarmos dentro de uma tonga de sisal e esperar pelos próximos acontecimentos. Nós seguíamos a nossa viagem na carrinha do Cunha que ia a conduzir e atrás estavam os atiradores, dos quais o Sr.Fernando Carona fazia parte. Bom, esperámos assim cerca de 20 minutos e como o inimigo não aparecia, decidimos arrancar em direcção ao nosso objectivo. Entretanto fomos obrigados a passar pelo interior da Fazenda,cujo nome não me recordo, onde se encontravam alguns nativos à volta de uma fogueira. Perguntámos se por acaso tinham visto alguém que se deslocava para ali ou que por aí tivesse passado, mas a resposta foi negativa. Como experiente guerreiro nesse momento enganei-me porque acreditei no inimigo e esse nosso pequeno descuido quase nos foi fatal. Entretanto seguimos viagem já mais à vontade, porque o perigo já tinha ficado para trás, mas era pura ilusão...porque no nosso regresso, depois de matarmos só um coelho, demos de frente com os faróis de um carro que nos encandeou. O Cunha que ia a conduzir, fez de imediato uma retirada estratégica, engrenando uma marcha atrás, mas esqueceu-se que iam dois infelizes na parte traseira do carro...e então fomos ao chão e deixei de ver o Carona, que por ironia do destino tinha caído e batido com a cabeça no chão e desmaiou.Parece que o fiscal de caça e o ajudante agarraram de imediato nele que teve de confessar quem ia com ele. Mas de inicio negou saber quem seriam os amigos. Entretanto foi preso e foi com o fiscal para depois confessar que o outro que conduzia o carro era o Cunha. Mas o inimigo não nos abandonou, porque como eu entretanto estava escondido debaixo de uma velha folha de sisal que tinha mais de dois metros de altura. eles procuraram aterrorizar-me dizendo que me davam um tiro, o que aconteceu alguns minutos depois. Por minha sorte não fui atingido, mas a bala atingiu a folha que estava por cima de mim, mas assustei-me um pouco. Eu não podia imaginar que fora da guerra também estava na iminência de ser atingido...e só não aconteceu por milímetros. Entretanto agora a guerra era comigo, porque não estava identificado e "porque tinham de apanhar esse sacana que estava escondido". Ali permaneci debaixo da planta de sisal talvez trinta a quarenta minutos e estava a dois metros do inimigo...mas eles tinham um osso duro de roer, porque depois de quase levar um tiro estava disposto a contra atacar e esperei a qualquer momento o segundo que talvez me levasse desta para melhor...mas não aconteceu e talvez também para bem deles...porque eu estava com uma arma de bala e via perfeitamente o fiscal e o ajudante delineados pelo luar que pronunciava a silhueta dos dois, mas não tive coragem sequer de pensar o que poderia acontecer. Eu estava inerte e assim continuei, mas apesar de estarmos numa noite de Junho em que o frio era intenso, transpirava abundantemente. Acho que me distraí um pouco embrenhado nos meus pensamentos e até já tinha pensado como havia de vender o meu Datsun 1600 S, para pagar as custas do Tribunal...depois talvez tenha acordado e notei que estava só. Levantei-me muito rapidamente, corri por uma picada dentro do sisal e para meu espanto espatifei-me num enorme buraco, mas quis o destino que não me ferisse. Tive de recobrar as forças, verificar se estava maltratado e como notei que estava bem, saí de lá a correr, tal como tinha entrado. Estava desejoso de chegar a uma ponte que passava o rio para a outra margem, para me safar em direcção a qualquer destino, menos aquele...mas a ponte estava ocupada pelos fiscais, que sabiam perfeitamente que aquele era o único ponto de passagem. Pois, para contrariar o rio tinha galgado as margens cerca de 100 m para cada lado e eu naquele momento estava no meio do rio sem notar. Sim, eram duas horas da madrugada e havia um foco constante vindo da ponte que me tentava localizar. Pensei e voltei a pensar o que fazer à vida, mas lá encontrei um meio de passar a noite...em cima de uma mangueira. Subi não sei como, mas senti-me muito protegido naquele momento, porque ali ninguém me via, e acordei às seis da manhã. Desci da dita mas o fiscal ainda permanecia por ali, mas eu não sabia o resto da estória. Então resolvi passar o rio bem cheio através de uns caniços e paus e consegui colocar-me na outra margem. Eu levava calçado umas botas de borracha de cano alto bem cheias de água e assim corri entre vinte e trinta Km. até à Fazenda Elisa. Quem me salvou foi o Fernando Pessoa que me levou até a casa. Entretanto o Cunha foi acordado à noite pelo Carona na presença do Fiscal, para que me fossem procurar ao sitio onde desapareci, mas eles disseram sempre que não me conheciam...uns valentes, porque este pequeno pormenor foi a nossa sorte. Eles foram perdoados pelo fiscal porque ainda eram jovens, pois só a mim que era um malfeitor é que eles queriam levar a tribunal...
Um abraço do Canais

25 fevereiro 2011

RELEMBRAR O CÓDIGO DE CONDUTA

Meus caros amigos e amigas,
Permitam-me, a todos relembrar o código de conduta do nosso blog:

Este blog foi criado com grande amor e com um único fim:
A partilha de emoções entre todos os Cubalenses e amigos do Cubal. Acredito sinceramente, que o mesmo fomente o debate saudável e possibilite novas ligações entre pessoas. Algo que está a acontecer dando-me, por isso, um enorme prazer. Como administrador deste blog informo que NÃO TOLERAREI, qualquer tipo de comentário que possa ferir a dignidade de quem quer que seja, bem como incitamento ao ódio relativamente a grupos com base na raça ou etnia, religião, deficiência, sexo, idade, posição social e orientação sexual, bem como ameaças directas de violência contra determinada pessoa ou grupo de pessoas. Penso que não será necessário a aplicação de um código de conduta para garantir "boas maneiras" , porque parto do pressuposto que todos somos pessoas de bem e dignas desta comunidade de amigos. Apesar disso, reitero a informação anterior de que NÃO TOLERAREI DE MODO ALGUM, comentários sobre a capa do anonimato ou não, que sejam no meu entendimento, ofensivos para qualquer um de nós. Creiam que tenho meios para detectar e apagar de imediato essas mesmas mensagens.
Quem não quiser acatar estas regras, convido-o a NÃO ACEDER OU A NÃO COMENTAR O NOSSO  http://cubal-angola.blogspot.com/
Obrigado
Ruca

23 fevereiro 2011

VIDA REAL Nº 2 - Eduardo A. Flórido


O passado presente…


À minha querida professora OLGA.

Ao meu bom amigo MANUEL FERNANDO CARONA.

De quando em vez, avivo a memória com factos que se tornaram de todo inesquecível, nem que por muito eu venha a persistir numa cruzada de atravessar desenfreadamente luas e sóis, sempre com uma febre louca de vida, cada vez mais intensa, me possa tentar fazer esquecer a maravilhosidade de ter pertencido a uma geração destemperada, na sua ânsia de descoberta de vida sentida, que inúmeras vezes nos delicia no  levantamento do véu que cobre o baú de memórias escondidas. Muitas certamente já carregadas de TEIAS, mas nunca de ARANHA e sim de saudades, difíceis de descarregar pela sua emocionalidade, num confronto com as actuais formas educacionais que nos vão distanciando, cada vez mais, como um barco ao sabor da maré, numa tempestade gigantesca de, faça-se o que se fizer, vivam sem darem a origem a uma sequencialidade, de governabilidade educacional que nos possam fazer traduzir e transmitir, aquela educação-mestra a filhos e por nós recebida de professores, oriundos de formações de diferença superior, onde a acompanhante “CINCO OLHOS”, régua maldita, para alguns (o meu caso), com que diariamente era brindado, sem contemplações, mas acabando esses bons Samaritanos (professores a sério), por me deixarem em paz por que inúmeras vezes depois de cinquenta reguadas, minimamente, em cada mão, com uma desfaçatez tremenda, dava-me gozo, levar a sala ao rubro, perguntando ao autor da façanha, se já havia terminado (ai que saudades), ou haveria continuidade, pois certamente eu poderia  esperar enquanto ele descansava, era o caos… além das mãos, já inchadas, pela dose de cultura aplicável, SEM MAGALHÃES, era bombeado com meia dúzia de chapadas, de uma aplicação em forma extraordinária e  a preceito que nem mesmo assim era motivo, para eu deixar de sorrir, já que tanto as doses, umas e outras, de cultura ensaiadas em laboratórios, presenciados por toda a turma, ávida de ver o colega apanhar nas fuças (só doíam as primeiras), valendo a verdade que nunca nenhum professor tenha tido o condão, de  ver uma lágrima vertida, no meu rosto…
Até que um dia…
E nestas coisas há e haverá sempre uma primeira vez, a professora Olga (Querida Professora, como gostaria de saber de si), sabendo da minha artimanha na psicologia da RÉGUA APLICADA e no meu modo de contra ataque, resolve dar-me uma dupla ensinadela, das grandes, que certamente jamais se esquecerá, ela e o outro dos autores da proeza, que já estará a sorrir, por se lembrar deste tão específico episódio, neste acto tão singelo de amizade…
Dª. Olga, chama-me ao quadro e trama-me, uma divisão com 4 algarismos, e eu começo desde logo, com uma carinha de carneiro mal morto, a esfregar as mãos nos calções (qual calças qual carapuça, aquilo era régua de dedicação machista numa escola mista), a pensar quando começaria o arraial. Logicamente haveria de começar o aquecimento antes de se dar inicio à partida, propriamente dita…
Mas a excelente professora, desta vez, pensa de um modo muito mais airoso, subtil até e contra_ataca de uma forma, direi quase “macabra”, com certamente a intenção de acabar e arrumar de uma vez por todas, como a minha arte de psicologia-filosófica e para espanto meu e restante turma chama o calmeirão, naquela altura, parecia o GOLIAS (+- 1,90m), o meu querido amigo MANUEL FERNANDO CARONA (amigo?), para ir fazer a conta ao quadro. O nosso amigo quase adivinhando, o que se iria passar de seguida, chega acompanhado de um sorriso sarcástico, e em meia dúzia de gizadelas, resolve a divisão. E eis que a minha querida mestra, sem papas na língua, se vira para o CARONA e lhe diz, depois de lhe passar a régua para a mão: NANDO, dá cinco reguadas ao Eduardo, para ver se futuramente ele não se esquece de fazer contas de dividir. Santo Deus, pensei, não ser merecedor daquela barbaridade. Minimamente ficaria sem braço, tal a ferocidade vislumbrada, ferocidade de prazer sádico, na face daquele que, ainda hoje me dá o privilégio de ser um bom e grande amigo.
O Carona acaricia a régua e eu vejo aquele monstro (com todo o respeito NANDO), armado a preparar-se para me dar cabo, do braço, sem se lembrar das tropelias, que quando saíamos da escola fazíamos em conjunto.
Quis o destino que eu ficasse de frente para a professora, ficando o castigador de costas para a mesma, dizendo-me esta, se queria, ver se me continuava a rir, depois da flagelação, que o meu excelente (?), colega me iria prestar.
Sinceramente pensei, saio daqui maneta. Ao Carona, nunca o tinha visto tão feliz, sorridente, preparando-se para tão tremendo acto lúdico. Estico a mão, fecho os olhos, e como sempre em situações difíceis peço a Deus que não me abandone. Muito a custo consigo abrir um olho e vejo o nosso amigo, a fazer uma curvatura de 180º, com a régua, ou seja com o seu pequenino braço, salvo seja (safa), penso e deixo-me estar com a mão quietinha, antes porém olhando para a professora Olga, que com um sorriso tem a desfaçatez de me piscar o olho, como a transmitir-me que aquele seria o dia que ela gostar-me-ia e ver, a voltar aos convites e esperar pelo descanso dos autênticos regueiros (homens da régua) …
Chegado o momento o Carona dispara, felizmente era a primeira vez que praticava aquele exercício, que nada tinha a ver com contas de dividir, e sim mais com regras de cálculo, e todos sabemos que sem treinos não há habilidosos, nem habilidade que nos salve, mas se atentarmos à particularidade foi exactamente essa a minha salvação, quando a régua (a bala do atirador), passa junto do alvo (a minha mão), esta até abanou, devido à deslocação do ar, porém sem o mínimo toque já que o meu querido colega falha escancaradamente e sem que ninguém o estorvasse, pois não era preparado para aquelas andanças e DEUS conseguiu ouvir as minhas preces. Mas o mais bonito ainda estava para acontecer… Sem encontrar a resistência do destino (a minha querida mão), a régua na sua marcha imparável, vai ao joelho do NANDO, e de imediato lhe abre um grande corte no mesmo, saltando-lhe a régua da mão, indo directamente também ao joelho da professora OLGA coisas do raio), fazendo-lhe tb., um grande golpe, tendo logo de seguida ela (Professora Olga) e o meu querido amigo (Nando), recorrido ao SINDICATO, onde o bondoso Enfº Sr. Costa, de uma só vez, se deu ao luxo de fazer, o curativo de dois joelhos, perante as gargalhadas que eu soltava quando os dois chegaram dos seus respectivos curativos, feitos no local acima referenciado. Eu vencera, mais uma vez, e de uma cajadada matara, não dois, mas sim três coelhos.
O meu querido colega CARONA, nunca mais se mostrou tão afoito, em dar reguadas aos colegas, a minha querida professora OLGA, provou do seu próprio veneno, e com aquela professora, a terrível “CINCO OLHOS”, nunca mais foi usada naquela sala de aulas.
Esta VIDA REAL, penso ter acontecido, na 3ª ou 4ª Classe, ano 62 ou 63, (ESCOLA PRIMÁRIA Nº 40), se a memória não me atraiçoa…

Voltarei em breve…
Um abraço a todos,

Até lá.
*Eduardo A. Flórido  

07 fevereiro 2011

VIDA REAL Nº 1 - Por Eduardo A. Flórido

À minha querida e Santa Mãe…
Uma noite destas escutava, como o faço diariamente, o telejornal (20 horas) de uma qualquer Televisão, quando com honras de abertura, a jornalista emocionadíssima, abria o mesmo de uma forma sensacionalista e direi um tanto ou quanto oportunista, ao frisar que numa prova de cabal demonstração e de dignidade absoluta, uma professora, por sinal pertencente ao Governo, que nos rege (da qual me recuso dar o nome, pois jogamos em equipes e posições diferentes), depois de ter dado à luz, sete, sim digo bem, sete horas depois, saiu da maternidade onde se encontrava internada e pelo seu próprio pé, foi dar o resto das aulas programadas para esse dia… Segundo a mesma o dever estava acima de tudo, e havia necessidade de dar exemplos destes para ninguém se convencesse que não seria sem espírito de sacrifício, que este pedacinho à beira mar plantado, iria para a frente. Louvável, exemplarmente louvável… Direi mesmo, convenientemente louvável. Tão exemplificadamente louvável, que sem dar por isso, desenfreadamente atravesso a barreira do espaço e do tempo e num regresso sem programa dou comigo em 1953, no Cubal mais propriamente na Fazenda Elisa, Abril, noite de 16 para 17. Irene de seu nome (eu preparava-me para dar entrada na estratosfera terrestre), gritava de janela aberta, para uma vizinha de nome Maria para que esta lhe acudisse. No entanto devido ao avançado da hora a mesma Senhora infelizmente não a escutava pois a distância ainda era alguma. Júlia e Joaquim Manuel, entretanto acordados devido aos gritos da mamã Irene, encontravam-se assustados pois pela primeira vez assistiam àquela mulher de aço, quase a vergar-se pelo ímpeto da mãe natureza. Júlia, ainda uma menina, sem saber aquilo que se passava dirige-se à mãe e pergunta-lhe porque ela gritava tanto e o que a afligia. A mãe sorri-lhe e diz-lhe, vão-se deitar, e não se preocupem, estou a gritar para afugentar um lobo, que passou diversas vezes pela nossa janela. Mas a irrequietude traquina de Júlia, debaixo da capa que só as crianças conseguem ter, diz-lhe docemente: Mãe, se é um lobo porque não fechas a janela? Irene olha para ele e sorri, e diz-lhe então, rápido meus filhos, preparem-se que vamos a casa da Dª Maria. Cada vez mais, sem perceberem nada do que se estava a passar, Júlia e o irmão Joaquim Manuel, tentam acompanhar a mãe, em vão, já que esta numa impressionante corrida, chega a casa da vizinha e apressadamente acorda-a e pede-lhe ajuda, contando-lhe que eu inesperadamente já tinha começado a minha viagem de entrada neste mundo. Dª Maria de pronto prepara-se e diz-lhe que de imediato a seguirá. Como entretanto as dores, aumentam a impaciência de Irene aumente tb., grandemente e de imediato corre novamente para casa, acompanhada pelos dois filhos Júlia e Joaquim Manuel, que quase morrem de medo, devido à escuridão que se fazia sentir, pensando no lobo do qual mamã Irene tinha falado e com medo que o mesmo lhe pudesse aparecer. Entretanto aí chegados, não suportando mais, o esforço que houvera feito em corrida acelerada (cerca de 300metros, ida e volta), Irene sem aguentar por mais tempo, cai e eu à entrada do quarto, dou comigo a berrar em cima de um tapete, porque não tinha tido a melhor aterragem no planeta Terra.
Uma estreia pouco auspiciosa.
00H 05M, marcava o controlador do tempo…
Dª. Maria entretanto chegada, vira-se para aquele que me acabara de dar à luz, e diz que não sabia nem o faria, cortar-me o cordão umbilical, pois também se tratava de uma grande responsabilidade, ao qual a minha mãe sorri, e pede-lhe para trazer o álcool, e uma tesoura, que ela mesmo faria isso. Dito e feito, esta mulher de armas, do qual me orgulho de ser filho, sem hesitações, corta-me o cordão umbilical, e deixa-me a navegar a partir daí entregue à sorte de ser mais um terrestre, componente do clã FLÓRIDO.
Quando o meu pai chega, ainda não tivera a oportunidade de o conhecer, fica embasbacado, porque era acompanhado pela Srª Dª Alda Pais, Enfermeira-Parteira, que em principio viria assistir à m/ Chegada. Mas apenas vem confirmar, que a minha querida mãe, já me tinha dado banho, já tinha lavado a roupa que entretanto se sujara, continuando calmamente a trabalhar naquilo que havia necessidade de fazer. Eu começava ali, a minha ODISSEIA TERRESTRE, que já vai em 57 anos…
Regresso ao presente, fecho a televisão. Vou à janela e sinto que há uma estrela que brilha mais do que todas as outras, no firmamento. Sei que me vê, eu sei que ela está lá, e sei que está a sorrir pelo milagre que uma professora pertencente aos homens que nos governam foi noticia de abertura de um qualquer Telejornal, por ter ido dar aulas depois de sete horas de ter sido mãe e ser convenientemente amparada numa maternidade.
Senti que a minha saudosa mãe me piscou o olho, e entre dentes disse: OUTROS TEMPOS, OUTRAS MÃES E LOCUTORAS SENSACIONALISTAS…

P.S. – Um agradecimento especial à minha irmã Júlia (Mãe do Ruca) sem a qual esta 1ª VIDA REAL, seria impossível, por ela me ter dado as dicas de um Passado, perpetuado já nas memórias do VIVIDO.
OBRIGADO JÚLIA.
OBRIGADO MÃE.

*Eduardo A. Flórido.

02 fevereiro 2011

Olá MÃE ANGOLA! (texto de Olga Valadas, escrito em 1993)

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Hoje dia 02 de Fevereiro, seria o aniversário da nossa saudosa Olga Valadas. 
Sua irmã Fernanda, envia-nos este belo texto pedindo que o mesmo seja partilhado através do nosso blogue.
Aqui fica a nossa homenagem. 

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Olá MÃE ANGOLA!

Digo apenas olá, para não deixar que em mim morra a ilusão de que foi ontem que nos despedimos num longo abraço, tão longo e apertado, que magoou nossos corpos e feriu nossas almas.
Não te pergunto como estás, porque sei que cada dia que passa te sentes mais fraca, mais combalida e mais agonizante. Sentes-te angustiada por veres correr no teu solo o sangue dos teus filhos que não te abandonaram e que continuam a lutar para te defender na esperança de que um dia, talvez não muito distante, possam conquistar a alegria e a paz, para poderem viver no ambiente de respeito e amor em que tu nos criaste.
Talvez tu, MÃE, nos julgues traidores por há dezoito anos termos sido obrigado a dizer-te adeus. Perdoa-nos MÃE, se inconscientemente te desiludimos, mas acredita: falando em mim, falo também por todos os teus filhos que hoje vivem errantes pelos quatro cantos do mundo.
Todas as noites no meu leito, deixo vaguear o meu pensamento e e com um sentimento misto de dor e alegria que recordo os momentos tão felizes que passei junto de ti, sempre protegida pelos teus braços vigorosos de imbondeiro.
De mãos dadas percorríamos os campos verdes onde os regatos de agua cristalina corriam livremente, saciando a sede dos homens e dos vários animais selvagens que contem a tua fauna.
Lembro-me tão bem, MÃE ANGOLA, quando me lavavas com mil cuidados nas tuas dambas, nos teus rios e depois me mostravas, orgulhosa, as cascatas e florestas em galeria... percorro mentalmente todo o teu corpo e em cada recanto descubro belezas inconfundíveis e incomparaveis, difíceis de descrever. Percorro as savanas onde tu tantas vezes subiste as árvores para colheres os seus frutos que me davas com tanta ternura e que eu saboreava com volúpia e avidez. A manga, o lohengo, o mamão, a goiaba e tantos outros cujo sabor, por vezes se mistura com o sabor salgado das minhas lágrimas.
Quando a tarde chega e o sol anuncia a sua partida, uma tristeza estranha invade todo o meu ser e recordo com intensidade as vezes que ambas, de cima de uma colina, víamos esse astro rei avermelhado e majestoso, esconder-se lentamente, por detrás das tuas florestas luxuriantes, ou então, por entre o cume das montanhas azuis, enquanto ouvíamos longínquos sons de cantares e batucadas ou ainda, o som grave e forte do rugido do leão; espectáculo maravilhoso digno de figurar na tela de um grande mestre e que todos os Homens deveriam ter o privilegio de ver, para que melhor pudessem amar e preservar o enorme paraíso que tu és.
Sei que choras neste momento, mas, MÃE ANGOLA, seca as tuas lágrimas. Se forte! Se sempre a MÃE coragem que os teus filhos conheceram. Lembra-te. O teu ventre e ainda jovem, e ainda fértil, e tal como outrora, ele voltará a fecundar e a povoar esse rincao de África onde nasci.
Perdoa-me MÃE! Mas sem querer duas lágrimas teimosas rolam-me pelas faces... também estou a chorar. Sinto a garganta apertada e os soluços incontidos irrompem fazendo o meu peito estremecer.
Na solidão da noite apuro os meus ouvidos e julgo escutar na voz do vento, o som indeleveldos teus gemidos e... lentamente, ergo os meus olhos aos céus e numa prece muda, mas sentida, peco ao Senhor meu Deus, que na sua Bondade e Omnipotência, se compadeça do nosso sofrimento e nos conceda a graça de nos podermos rever mais uma vez.
MÃE, não quero morrer sem voltar a ver-te, sem voltar a estreitar-te nos meus braços. Mas, se isso acontecer longe de ti, quero levar comigo para a tumba fria, um pedaço de terra vermelha arrancada do teu ventre. Quero que guardes na lembrança a ternura do meu último beijo em tua face, tão ardente como o calor tropical que emana do teu corpo.

Quero que guardes eternamente em teu generoso coração, a certeza de que:

- Mesmo para alem da morte, continuarei a amar-te e a chorar de saudade.

Amo-te, Angola minha MÃE!!!
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texto de Olga Valadas escrito em 1993

01 fevereiro 2011

Cubalenses

Zeca, Isaura Mendes,Matilde Olga Valadas*

*amanhã dia 02 de Fevereiro seria o aniversário da Olga Valadas. Teremos um belo texto seu,  no nosso blogue .

Anabela Berrones, Matilde, Manuela Pitagrós

Barroso, Telmo, Alberto Ribeiro e_______

Recordações cubalenses

Casamento de Celso Barroso e de Matilde Mendes

Casamento de Celso Barroso e de Matilde Mendes

Família Barroso (Matilde Mendes, Celso Barroso e Vera Barroso)


Olá Ruca!
Sou Vera Barroso, filha de Celso Barroso e de Matilde Mendes.
Muitas vezes tenho visitado este site, que é sem dúvida fantástico. Através  dele já tive oportunidade de reencontrar amigos, relembrar lugares…
Na semana passada entrei em contacto com o Dinis que se lembrava dos meus pais e mandou fotos da nossa casa na Cassiva. 
Foi emocionante!
Mando agora o meu contributo em fotos, com um beijinho para todos os cubalenses.
 Para ti um grande OBRIGADA por este site.
P.S. Fiquei contente com as obras de recuperação do Cubal, como se pode ver pelas fotos enviadas pelo Dinis.