O insólito endereço da Melancia: Uma Memória de Santos Vilar
O nosso caríssimo amigo Rodrigo (Bibito) Guerra abre-nos novamente o baú das memórias para partilhar uma daquelas histórias deliciosas que só poderiam ter acontecido na nossa terra, num tempo em que a vida corria a um ritmo diferente e a ingenuidade andava de mãos dadas com a hospitalidade.
Esta é uma história verídica, muitas vezes contada pelo nosso bom amigo Santos Vilar, uma figura incontornável do Cubal.
Naqueles tempos áureos, o Santos Vilar explorava o Hotel Central (que viria mais tarde a ser o conhecido Hotel Rodrigues). Mas o seu espírito empreendedor não se ficava por ali; na rua de trás, mantinha também uma pequena lojinha, estratega e oportuna, que atendia os passageiros que desembarcavam do comboio, ali mesmo, a dois passos de distância.
Certo dia, entra na lojinha uma senhora. Vinha do Longonjo e trazia na bagagem a esperança de encontrar trabalho, afirmando ter muita experiência em serviço de hotelaria.
Com a humildade que o caracterizava, o Santos Vilar lamentou ter de informá-la que, naquele preciso momento, não tinha nenhuma vaga disponível no seu Hotel. Contudo, solícito, ofereceu-se logo para anotar o endereço dela. Se a sorte mudasse e surgisse uma oportunidade, ele avisaria.
A senhora agradeceu a gentileza e, antes de sair para continuar a sua procura de emprego pela vila, comprou uma bela melancia na loja.
O tempo passou e, como o destino gosta de pregar partidas, surgiu efectivamente uma vaga no Hotel. O Santos Vilar, homem de palavra, resolveu chamar a senhora do Longonjo. Escreveu a carta, preparou tudo e, só no momento de a colocar no envelope, é que se apercebeu da tragédia: tinha perdido o papel com o endereço!
E o que fez o Vilar? Desistir? Nem por sombras. Com a criatividade típica de quem desenrasca soluções, pegou na caneta e escreveu no envelope o seguinte endereço:
Longonjo"
Poderia pensar-se que a carta ficaria perdida nos meandros dos correios, mas a magia das pequenas povoações operou o milagre. No Longonjo, o Chefe dos Correios era um jovem rapaz que costumava fazer as refeições numa pensão com amigos.
Entre garfadas e conversas, contou aos companheiros sobre aquela carta com o endereço mais estranho que alguma vez lhe passara pelas mãos. A história, caricata como era, espalhou-se como pólvora. Pouco tempo depois, já toda a pequena povoação conhecia o caso e, inevitavelmente, a destinatária foi identificada.
A senhora recebeu a carta "sem endereço" do Santos Vilar, provando que, em Angola, a boa vontade e o "passa-palavra" valiam mais que qualquer código postal.
Uma memória partilhada por:
Rodrigo (Bibito) Guerra
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Ruca