Quando uma fotografia devolve uma vizinha:
Zézinha Peixoto, o Sabu e o Cubal que não esquece
Há fotografias que não se limitam a mostrar rostos. Às vezes, uma imagem antiga abre uma porta e, por essa porta, regressam ruas, casas, vizinhos, nomes, famílias e pequenos episódios que julgávamos esquecidos.
Foi isso que aconteceu com a Zézinha Peixoto.
Tudo começou com uma publicação da série “Fui, à Foto Lig”. A fotografia foi vista pela própria Zézinha, que reagiu com emoção e comentou que já nem se lembrava daquele retrato. A partir daí, quase sem darmos por isso, começaram a juntar-se pequenas peças de um puzzle antigo.
Percebi então que não guardava apenas uma imagem da Zézinha. Guardava também memórias dela. Memórias de vizinhança, de infância e de um Cubal onde as casas, as famílias e as ruas se cruzavam de forma muito natural.
Nas imagens que hoje partilho, há três janelas diferentes para esse Cubal de ontem.
Numa delas vemos a Zézinha junto ao letreiro da estação do Cubal. Para ela, aquele lugar tinha um significado muito especial, pois o seu pai foi chefe da estação. O letreiro, as linhas, os vagões e a plataforma não são apenas cenário. São parte da sua história familiar e da memória ferroviária da nossa terra.
A estação era, naquele tempo, muito mais do que um ponto de chegada e partida. Era lugar de encontros, despedidas, movimento, notícias e esperança. Por ali passavam pessoas, mercadorias, histórias e destinos. E, para muitos de nós, o caminho-de-ferro faz parte inseparável da memória do Cubal.
Noutra fotografia, talvez a mais íntima das três, vemos uma imagem que a própria Zézinha guarda há muitos anos consigo. Como ela me escreveu, “esta foto anda sempre comigo na carteira”. Está velhota, marcada pelo tempo, mas carregada de afecto. Nela aparecem o seu falecido marido, Fernando Peixoto, a própria Zézinha, o seu pai, Alexandre, a sua mãe, hoje com 90 anos e ainda a viver consigo, e também um irmão do Sr. Abrantes, cujo nome a Zézinha não recorda com certeza.
E, como ela própria acrescentou com ternura, “falta a foto do Sabu...”. Às vezes, uma fotografia gasta vale muito mais do que uma imagem perfeita: vale pela vida que transporta.
A terceira imagem leva-nos para um momento de juventude, onde a Zézinha aparece com amigas do Cubal. Segundo a sua memória, estão ali a Isabel Maria Duarte Francisco e a Luísa Machado, num tempo ligado a umas corridas de mota. A fotografia tem aquela presença espontânea dos anos vividos com naturalidade, entre amizades, encontros e uma certa alegria simples que o tempo não conseguiu apagar.
Estas imagens recordam-nos que a memória do Cubal não está apenas nos edifícios, nas datas ou nos grandes acontecimentos. Está sobretudo nas pessoas. Está nos vizinhos que reencontramos por acaso, nos nomes que regressam, nas famílias que se reconhecem, nos animais que fizeram parte das casas e nas conversas inesperadas que nos devolvem pedaços inteiros da infância.
Mais do que fotografias, a Zézinha trouxe-nos uma pequena janela para o Cubal de ontem.
E talvez seja esse o verdadeiro valor destas partilhas: percebermos que, apesar dos anos e das distâncias, há memórias que continuam vivas dentro de nós. Só precisam de uma imagem, de uma palavra ou de um nome para voltarem a respirar.
Nota para os leitores:
Se algum leitor reconhecer pessoas, lugares ou desejar acrescentar pormenores a estas memórias, ou corrigir algo, será um gosto receber essas contribuições. É também assim, com a ajuda de todos, que se vai recompondo o grande álbum afectivo do nosso Cubal.
Publicações relacionadas no blogue:
- Cubalenses — publicação onde se encontra Fernando Peixoto, em 1967.
- Conjunto Ferrovia do Cubal — memória musical ligada ao Cubal e ao ambiente de convívio da época.
- Zézinha Peixoto — “Fui, à Foto Lig” — a fotografia que acabou por reabrir esta memória.
- Francisca Isilda — “Fui, à Foto Lig” — nossa vizinha e uma das pontes desta memória reencontrada.
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