O dia em que o Cubal ganhou voz
A s imagens que hoje partilhamos têm o poder raro de nos transportar imediatamente para uma época em que a rádio era a principal janela para o mundo.
Com a data 10 de Junho de 1967 orgulhosamente inscrita nas fotografias originais, estas três preciosas imagens, gentilmente cedidas por Fernanda (Nanda) Valadas, mostram-nos os primeiros momentos de um marco histórico: a inauguração do Emissor Regional do Cubal.
As fotografias que aqui publicamos foram cuidadosamente recuperadas e tratadas digitalmente, procurando preservar o ambiente e a autenticidade das imagens originais, ao mesmo tempo que se corrigiram os efeitos naturais do tempo.
Nelas vemos o jovem sonoplasta Acácio Vieira, concentrado no trabalho técnico dentro do estúdio recém-estreado. Botões, mostradores analógicos, discos de vinil prontos a entrar em rotação e o silêncio controlado do estúdio formavam o coração técnico de uma emissão que começava ali a dar voz ao Cubal.
O que as imagens não mostram, mas que a memória revela, é que foi precisamente neste ambiente da rádio que Acácio Vieira e Fernanda Valadas se conheceram. O técnico e a futura locutora acabariam por unir os seus destinos, transformando aquele estúdio não apenas num espaço de trabalho, mas também no início de uma história de vida.
Fernanda Valadas recorda com orgulho ter sido a primeira locutora do Emissor Regional do Cubal.
O caminho até ao microfone exigiu preparação e rigor. Durante uma estadia em Benguela, onde foi passar férias a casa da irmã, realizou um período de estágio sob a orientação de António Freire, então responsável pelos locutores do Rádio Clube de Benguela.
Os testes eram exigentes. Gravava-se a voz, ouvia-se a gravação e vinham as correções.
“A pessoa a falar normalmente come sílabas, come palavras. No microfone tem de se dizer tudo como deve ser.”
Com essa preparação, Fernanda iniciaria a sua actividade precisamente no dia da inauguração do emissor, tornando-se assim a primeira locutora do Emissor Regional do Cubal.
Uma escola de rádio no coração do Cubal
O Emissor Regional do Cubal funcionava em estreita ligação com o Rádio Clube de Benguela, beneficiando do apoio técnico e da experiência de profissionais que ali se deslocavam com frequência.
Segundo as memórias partilhadas por Fernanda Valadas, pelo Cubal passaram ou colaboraram vários nomes marcantes da rádio da época, entre eles:
- António Freire
- Maria Inês
- Maria Dinah
- Gustavo Rosa
- Linda Rosa
- Maria de Fátima
- Francisco Marques da Silva (técnico)
- Mário Marques da Silva (locutor)
Jaime Marques de Almeida e António Maia pertencem à memória do arranque do emissor que era também considerado um espaço de aprendizagem. Havia jovens curiosos que ali começavam a descobrir o mundo da rádio, aprendendo com técnicos e locutores mais experientes. Assim se transmitiam conhecimentos e se garantia a continuidade das emissões.
Um detalhe técnico muito curioso
Ao observar atentamente estas três fotografias restauradas, surge um pormenor particularmente interessante: a mesa técnica visível na terceira imagem é claramente diferente da que aparece nas duas primeiras.
Esse detalhe sugere que o estúdio poderia já contar, naquele tempo, com equipamentos distintos para funções diferentes, nomeadamente uma zona mais ligada à reprodução em gira-discos e outra associada ao controlo principal da emissão.
Mais do que simples retratos de época, estas fotografias acabam assim por constituir também um pequeno documento técnico do estúdio do Emissor Regional do Cubal, ajudando-nos a perceber melhor a forma como aquele espaço estava organizado.
Ecos da grande rádio angolana
Entre os grandes nomes da rádio angolana dessa época recorda-se também Sebastião Coelho, figura muito popular entre os ouvintes.
Muitos ainda guardam na memória o seu programa nocturno “Café da Noite”, patrocinado pela Casa Campeão. Ficou especialmente gravada na lembrança dos ouvintes a expressão publicitária que lhe era associada e que tantos ainda hoje recordam:
Para muitos ouvintes, sobretudo nas noites longas de Angola, aquela voz tornava-se companhia habitual. Esta frase, mantida aqui tal como era dita e recordada, faz parte dessa memória radiofónica popular ligada ao nome de Sebastião Coelho.
Maria Dinah, recordada nestas memórias, viria também a trabalhar com Sebastião Coelho e continuaria mais tarde a sua vida profissional na Venezuela, onde acabou por falecer há alguns anos.
Memórias que continuam a ecoar
Ao longo dos anos, o Emissor Regional do Cubal tem sido um tema recorrente neste espaço. As histórias, testemunhos e fotografias que vão surgindo ajudam a reconstruir a importância que a rádio teve na vida da comunidade.
Para quem quiser continuar a explorar estas memórias, vale a pena revisitar alguns artigos já publicados no blogue:
O Baú de Memórias do António Pereira
Sintonia de Saudade – O Emissor Regional do Cubal
Primeira reportagem de exteriores do Rádio Clube do Sul de Angola (Cubal)
Estas três fotografias são, por isso, muito mais do que simples imagens antigas. São testemunhos de um dia em que o Cubal ganhou voz nas ondas da rádio.
Fica aqui o nosso agradecimento a Fernanda Valadas, por abrir o seu álbum de fotografias e a sua memória, permitindo-nos partilhar com todos mais este fragmento precioso da história do Cubal.
Que o som destas memórias continue a ecoar.
Nota para os leitores
A memória colectiva constrói-se com muitas vozes. Se algum leitor desejar corrigir, complementar ou acrescentar informações, nomes, datas, episódios ou pormenores relacionados com o Emissor Regional do Cubal, ficaremos muito gratos pela sua partilha.
Cada contributo ajuda a enriquecer e preservar esta história que pertence a todos.
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