Nas Serrações de Madeira do Rio Catumbela
Uma ponte artesanal, um rio antigo e a memória dos pioneiros
| Sr. Mendes, Matilde, Isaura, D. Zezilanda, António Valadas e D. Lucinda. |
Esta bela imagem histórica, generosamente partilhada connosco por Nanda Valadas, leva-nos aos anos 50, às antigas serrações de madeira junto ao Rio Catumbela, em Angola.
Há fotografias que não são apenas fotografias. São pequenos documentos de vida, guardados pelo tempo, onde se cruzam paisagem, família, trabalho, coragem e memória.
Nesta imagem, vemos uma ponte artesanal sobre o Rio Catumbela. Uma ponte simples, feita de troncos, ramos e engenho humano, suspensa sobre a força da água. Não tem a imponência das grandes obras, nem a segurança das pontes modernas. Mas tem qualquer coisa de mais profundo: mostra-nos como se vivia, como se passava, como se atravessava, como se enfrentava a natureza com os meios disponíveis e com uma confiança que hoje quase nos comove.
Sobre essa ponte, ficaram registados para a memória o Sr. Mendes, Matilde, Isaura, D. Zezilanda, António Valadas e D. Lucinda.
Estão ali, firmes, diante da corrente. A pose é simples, mas poderosa. Não há artifício. Não há cenário montado. Há apenas a verdade de um lugar, de uma época e de pessoas que fizeram parte da história vivida junto ao Rio Catumbela.
O Rio Catumbela e as antigas serrações
O Rio Catumbela foi, durante muito tempo, mais do que uma presença natural na paisagem. Foi caminho, recurso, força motriz e ponto de ligação entre comunidades. Nas suas margens, a madeira, o transporte, o trabalho e a vida quotidiana encontravam-se numa relação permanente com a água e com a terra.
As serrações de madeira pertencem a esse universo de esforço e construção. Eram lugares onde a matéria-prima da natureza se transformava em utilidade, em abrigo, em estruturas, em ferramentas, em vida prática. Ali trabalhavam homens e mulheres que, muitas vezes sem grande visibilidade nos livros de história, foram verdadeiros construtores do quotidiano.
Esta ponte artesanal recorda-nos precisamente esse tempo. Um tempo em que a passagem sobre um rio podia depender da habilidade de quem conhecia a madeira, a corrente, a margem e o risco. Um tempo em que a natureza não era apenas contemplada: era enfrentada, respeitada e integrada na vida de todos os dias.
Olhando hoje para esta fotografia, não podemos deixar de pensar também nas cheias recentes que atingiram a região de Benguela e que trouxeram sofrimento, perdas humanas e materiais. A força dos rios, que durante décadas deu vida, trabalho e ligação às comunidades, continua a lembrar-nos a fragilidade da presença humana perante a natureza.
Por isso, esta imagem antiga ganha uma actualidade inesperada. Ela não fala apenas do passado. Fala também do presente. Fala da relação profunda entre as populações e os rios, entre a memória e a terra, entre aquilo que foi construído com esforço e aquilo que a água, em momentos de fúria, pode levar consigo.
O Sr. Mendes, Matilde, Isaura, D. Zezilanda, António Valadas e D. Lucinda surgem-nos aqui como pioneiros discretos de uma Angola vivida com simplicidade, trabalho e coragem.
Chamamos-lhes pioneiros não por grandiloquência, mas por justiça. Porque a história também se faz destes rostos, destes passos, destas travessias. Faz-se de quem esteve nos lugares antes de nós, de quem trabalhou, caminhou, criou família, abriu caminhos e deixou marcas que só mais tarde compreendemos plenamente.
Talvez esta fotografia tenha sido tirada num dia de passeio. Talvez num momento de visita às serrações. Talvez apenas porque alguém, ao olhar para aquele cenário, percebeu que valia a pena guardar aquele instante. Ainda bem que o fez.
Porque hoje, tantos anos depois, esta imagem regressa não apenas como recordação familiar, mas como património afectivo de todos os que se revêem nestas memórias de Angola.
A ponte, frágil na aparência, tornou-se forte na memória. O rio continua a correr. As margens mudaram. As pessoas partiram ou envelheceram. Mas o instante ficou. E, enquanto houver quem o partilhe, quem o nomeie e quem o guarde, esse instante continuará vivo.
O nosso sincero agradecimento à Nanda Valadas por esta partilha tão bela e tão importante.
Cada fotografia recuperada é uma pequena vitória contra o esquecimento. Cada nome identificado devolve humanidade à imagem. Cada memória partilhada ajuda a reconstruir a história afectiva de uma terra e de uma comunidade.
Que esta fotografia nos ajude a recordar, com respeito e gratidão, aqueles que viveram antes de nós junto ao Rio Catumbela, nas serrações, nas pontes improvisadas, nos caminhos difíceis e nos dias simples que hoje fazem parte da nossa memória comum.
Se algum leitor puder acrescentar informações sobre este local, sobre as antigas serrações de madeira do Rio Catumbela ou sobre as pessoas presentes nesta imagem, o seu testemunho será muito bem-vindo.
Ruca
Cubal Angola Terra Amada!
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