05 maio 2026

1 de Dezembro de 1972 — “Os Terríveis” do Cubal: onde a amizade não escolhia cores

1 de Dezembro de 1972 — Cubal

“Os Terríveis” do Cubal: onde a amizade não escolhia cores

“Os Terríveis” — equipa de desporto escolar do Cubal, 1 de Dezembro de 1972 .

Na fila de cima, da esquerda para a direita:
Olga, treinadora, Emanuel, eu (Ruca)  e Henriques.

Em baixo:
António Pinto, Fernando — ou será Victor? Fica o apelo aos amigos para ajudarem a completar esta memória —, Luís Carlos Contreiras Campos, o nosso conhecido Belito Campos e Luciano.


Esta é, sem dúvida, uma das imagens mais poderosas e significativas que hoje posso partilhar. Não encerra apenas a memória de uma vitória desportiva. Guarda, acima de tudo, a essência de uma Angola que vivíamos com a naturalidade e a pureza de quem ainda não conhecia barreiras.

Há fotografias que não envelhecem. Ficam connosco, guardadas no arquivo do coração, como um retrato fiel de quem fomos — e, de certa forma, de quem ainda somos.

Esta, datada de 1 de Dezembro de 1972, é uma das minhas preferidas.

Olho para ela e vejo muito mais do que uma equipa de desporto escolar. Vejo um grupo de miúdos, unidos por algo simples e verdadeiro. Éramos “Os Terríveis”.

Uma equipa vencedora, mas sobretudo uma equipa de amigos.

Sob o olhar atento e dedicado da nossa treinadora, a Prof.ª Olga Santos — a nossa querida “Olguinha” —, formávamos um bloco coeso. Mais do que treinar, ela ensinava-nos valores: disciplina, respeito e espírito de equipa.

Na fila de cima, da esquerda para a direita:
Olga, treinadora, Emanuel, eu (Ruca)  e Henriques.

Em baixo:
António Pinto, Fernando — ou será Victor? Fica o apelo aos amigos para ajudarem a completar esta memória —, Luís Carlos Contreiras Campos, o nosso conhecido Belito Campos e Luciano.

Era desporto escolar, sim. Mas era muito mais do que isso.

Esta imagem simboliza o que de melhor vivíamos antes de 1975. Olhávamos uns para os outros de frente, sem distinções. Nos nossos corações de crianças, nada nos separava. Não havia rótulos. Não havia diferenças que contassem. Éramos apenas amigos.

E isso via-se também fora do campo.

Lembro-me bem de tantos destes dias terminarem em nossa casa. A minha mãe, Júlia, recebia todos com a mesma naturalidade. À volta da mesa, não havia cor de pele. Havia pão partilhado, risos soltos e aquela algazarra boa da infância. Havia amizade — simples, inteira, sem esforço.


A medalha do torneio: Cubal, 1 de Dezembro de 1972.

O esforço desse dia foi recompensado com a medalha que guardo até hoje, gravada com o nome da nossa terra e a data que nos encheu de orgulho: Cubal, 1 de Dezembro de 1972.

Mas não ficámos por aí. A nossa união levou-nos também à conquista de uma medalha de campeões na corrida de estafetas. Cada um de nós fazia a sua parte — e juntos éramos mais fortes.

Mas, olhando hoje para esta imagem, percebo que a maior vitória não está no metal.

Está no que vivemos.

Recordar “Os Terríveis” é mergulhar numa nostalgia saudável, mas é também um exercício de esperança. Mostra-nos que é possível viver com naturalidade, com respeito, com proximidade verdadeira. Que a diversidade não nos afastava — aproximava-nos.

O Cubal desses anos era feito disso.
De encontros. De mistura. De vida genuína.

E talvez seja isso que mais importa guardar:
a certeza de que já soubemos viver assim… e que essa memória ainda nos pode guiar.

Porque, acima de tudo, fomos — e seremos sempre — colegas de infância e amigos para a vida.


Ruca
Cubal Angola Terra Amada!
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Um domingo no campo da aviação do Cubal


 

Um domingo no campo da aviação…

onde o céu começava ali ao lado


O nosso Mini Moke, num domingo de passeio pelo Cubal.

Há memórias que o tempo não apaga. Ficam guardadas em tons de sépia, no recorte nítido de fotografias que contam, em silêncio, a história de uma vida cheia.

Estas levam-nos ao final da década de 60, talvez já à porta dos anos 70, num Cubal que fervilhava de cor e de trabalho, mas que sabia guardar o domingo para a pacatez dos afetos.

O ritual começava quase sempre da mesma forma: o motor do nosso fiel Mini Moke a despertar. Um carro simples, aberto ao vento e à paisagem, perfeito para aqueles dias sem pressas. Ao volante, a minha mãe, Júlia, recentemente encartada, com aquele misto de concentração e orgulho de quem começava a conquistar o volante… e mais um pedaço do mundo.

A caminho do campo de aviação, num tempo em que o domingo parecia mais comprido.

É fácil imaginar que, nesse trajecto, o rádio nos fizesse companhia. O Emissor Regional do Cubal, sempre presente, e talvez a rubrica dos discos pedidos a encher o ar. E, quem sabe, a voz de Nelson Ned a cantar baixinho:

“O que é que você vai fazer no domingo à tarde… passear por aí…”

Como se aquela canção tivesse sido feita para nós.

A bordo, a alegria era simples e verdadeira. O meu pai, Raul, presença firme e tranquila, pilar de todas as jornadas. Eu, ainda miúdo, entre a curiosidade e o encanto de tudo aquilo. E a senhora Gina, chegada há pouco tempo de Portugal Continental para ajudar a minha mãe, a descobrir connosco aquela terra que também começava a ser sua.

Talvez o meu tio Joaquim estivesse por perto, mesmo não tendo ficado preso no instante das fotografias. Porque nestes dias, quase sempre, ninguém ficava de fora.





O campo de aviação do Cubal e a máquina voadora que alimentava a nossa curiosidade.

O destino era o mesmo de tantas vezes: o campo de aviação do Cubal.

Durante a semana, ouvíamos ao longe o ronco das “máquinas voadoras” que cruzavam os céus para desinfestar as plantações, sobretudo o algodão, o verdadeiro ouro branco da região. Mas ao domingo, a máquina repousava. E isso permitia-nos chegar perto, olhar sem pressa, quase tocar naquele sonho de voar.

Ali, o mundo mudava de escala.

A terra batida, o cheiro seco do mato, o silêncio cortado apenas pelo vento ou por uma conversa distante. E depois, o avião. Imenso. Quase irreal. Um objeto que parecia deslocado daquela paisagem, mas que fazia parte dela como tudo o resto.

O avião em repouso, depois de durante a semana cruzar os céus do Cubal.

Aproximávamo-nos devagar, com respeito quase instintivo. Havia sempre aquele momento de pausa, de olhar demorado, de perguntas que ficavam no ar. Como voa? Para onde vai? Como consegue desaparecer no horizonte?

E, no meio de tudo isso, estava o essencial: estarmos juntos.

As fotografias mostram gestos simples, olhares curiosos, pequenos instantes. Mas por trás delas está um tempo em que a vida se fazia de coisas aparentemente pequenas, mas profundamente significativas.

O Cubal era, de facto, vida e cor. 

Mesmo quando hoje o vemos em tons de sépia.

Um Cubal eterno, entre o pó da estrada, o brilho do avião e a memória dos afetos.

Ficam estes registos de um Cubal eterno, onde o pó da estrada, o som de um rádio ao longe e o brilho do alumínio de um avião se misturam numa memória que não se apaga.

E talvez seja isso que mais importa:
a certeza de que, num domingo qualquer, entre um Mini Moke, um avião pousado na terra e uma canção no ar… éramos felizes sem precisar de saber.


Ruca
Cubal Angola Terra Amada!
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26 abril 2026

Uma ponte artesanal, um rio antigo e a memória dos pioneiros - Anos 50 no Rio Catumbela

 

Memórias de Angola • Anos 50

Nas Serrações de Madeira do Rio Catumbela


Uma ponte artesanal, um rio antigo e a memória dos pioneiros

Sr. MendesMatildeIsauraD. ZezilandaAntónio Valadas e D. Lucinda.

Esta bela imagem histórica, generosamente partilhada connosco por Nanda Valadas, leva-nos aos anos 50, às antigas serrações de madeira junto ao Rio Catumbela, em Angola.

Há fotografias que não são apenas fotografias. São pequenos documentos de vida, guardados pelo tempo, onde se cruzam paisagem, família, trabalho, coragem e memória.

Nesta imagem, vemos uma ponte artesanal sobre o Rio Catumbela. Uma ponte simples, feita de troncos, ramos e engenho humano, suspensa sobre a força da água. Não tem a imponência das grandes obras, nem a segurança das pontes modernas. Mas tem qualquer coisa de mais profundo: mostra-nos como se vivia, como se passava, como se atravessava, como se enfrentava a natureza com os meios disponíveis e com uma confiança que hoje quase nos comove.

Sobre essa ponte, ficaram registados para a memória o Sr. Mendes, Matilde, Isaura, D. Zezilanda, António Valadas e D. Lucinda.

Estão ali, firmes, diante da corrente. A pose é simples, mas poderosa. Não há artifício. Não há cenário montado. Há apenas a verdade de um lugar, de uma época e de pessoas que fizeram parte da história vivida junto ao Rio Catumbela.

O Rio Catumbela e as antigas serrações

O Rio Catumbela foi, durante muito tempo, mais do que uma presença natural na paisagem. Foi caminho, recurso, força motriz e ponto de ligação entre comunidades. Nas suas margens, a madeira, o transporte, o trabalho e a vida quotidiana encontravam-se numa relação permanente com a água e com a terra.

As serrações de madeira pertencem a esse universo de esforço e construção. Eram lugares onde a matéria-prima da natureza se transformava em utilidade, em abrigo, em estruturas, em ferramentas, em vida prática. Ali trabalhavam homens e mulheres que, muitas vezes sem grande visibilidade nos livros de história, foram verdadeiros construtores do quotidiano.

Esta ponte artesanal recorda-nos precisamente esse tempo. Um tempo em que a passagem sobre um rio podia depender da habilidade de quem conhecia a madeira, a corrente, a margem e o risco. Um tempo em que a natureza não era apenas contemplada: era enfrentada, respeitada e integrada na vida de todos os dias.

Olhando hoje para esta fotografia, não podemos deixar de pensar também nas cheias recentes que atingiram a região de Benguela e que trouxeram sofrimento, perdas humanas e materiais. A força dos rios, que durante décadas deu vida, trabalho e ligação às comunidades, continua a lembrar-nos a fragilidade da presença humana perante a natureza.

Por isso, esta imagem antiga ganha uma actualidade inesperada. Ela não fala apenas do passado. Fala também do presente. Fala da relação profunda entre as populações e os rios, entre a memória e a terra, entre aquilo que foi construído com esforço e aquilo que a água, em momentos de fúria, pode levar consigo.

O Sr. Mendes, Matilde, Isaura, D. Zezilanda, António Valadas e D. Lucinda surgem-nos aqui como pioneiros discretos de uma Angola vivida com simplicidade, trabalho e coragem.

Chamamos-lhes pioneiros não por grandiloquência, mas por justiça. Porque a história também se faz destes rostos, destes passos, destas travessias. Faz-se de quem esteve nos lugares antes de nós, de quem trabalhou, caminhou, criou família, abriu caminhos e deixou marcas que só mais tarde compreendemos plenamente.

Talvez esta fotografia tenha sido tirada num dia de passeio. Talvez num momento de visita às serrações. Talvez apenas porque alguém, ao olhar para aquele cenário, percebeu que valia a pena guardar aquele instante. Ainda bem que o fez.

Porque hoje, tantos anos depois, esta imagem regressa não apenas como recordação familiar, mas como património afectivo de todos os que se revêem nestas memórias de Angola.

A ponte, frágil na aparência, tornou-se forte na memória. O rio continua a correr. As margens mudaram. As pessoas partiram ou envelheceram. Mas o instante ficou. E, enquanto houver quem o partilhe, quem o nomeie e quem o guarde, esse instante continuará vivo.

O nosso sincero agradecimento à Nanda Valadas por esta partilha tão bela e tão importante.

Cada fotografia recuperada é uma pequena vitória contra o esquecimento. Cada nome identificado devolve humanidade à imagem. Cada memória partilhada ajuda a reconstruir a história afectiva de uma terra e de uma comunidade.

Que esta fotografia nos ajude a recordar, com respeito e gratidão, aqueles que viveram antes de nós junto ao Rio Catumbela, nas serrações, nas pontes improvisadas, nos caminhos difíceis e nos dias simples que hoje fazem parte da nossa memória comum.

Se algum leitor puder acrescentar informações sobre este local, sobre as antigas serrações de madeira do Rio Catumbela ou sobre as pessoas presentes nesta imagem, o seu testemunho será muito bem-vindo.

Ruca

Cubal Angola Terra Amada!
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25 abril 2026

Quando o Cubal ainda levantava pó nas avenidas


 

Quando o Cubal ainda levantava pó nas avenidas

Esta fotografia leva-nos para o Cubal dos finais dos anos 60, talvez já a tocar os primeiros anos da década de 70. Era um tempo em que a luz parecia ter outra densidade, uma claridade muito própria, intensa e limpa, que fazia vibrar as cores e dava à vila um brilho difícil de esquecer.

Quem percorresse uma das principais avenidas do Cubal encontrava um cenário de transição, desses que hoje ganham ainda mais valor quando os revemos à distância. De um lado, o vulto moderno de edifícios que iam marcando o crescimento da vila. Do outro, a persistência da terra batida, ainda sem o tapete negro do alcatrão, cobrindo de um tom ferrugem as bermas da estrada, as jantes dos carros e, tantas vezes, os nossos próprios sapatos.

À esquerda, a estação da Texaco, com a sua estrela vermelha erguida bem alto, era muito mais do que um simples posto de abastecimento. Era uma referência do Cubal, um marco geográfico, um ponto de passagem e também de encontro. Ali, o cheiro da gasolina misturava-se com o odor seco da poeira levantada pelo vento e pelo movimento dos veículos.

Mais ao fundo, vê-se ainda a indicação da Fina, sinal de um Cubal vivo, em crescimento, com comércio, circulação e sinais bem visíveis de modernidade. Mas há nesta imagem algo que vai para além dos edifícios e das marcas. Há a própria atmosfera da época.

A estrada, ainda não alcatroada, era feita de chão firme, pisado e repisado por mil passagens. O som dos pneus não era o ruído seco do asfalto, mas antes um sussurro granulado e constante, tão familiar para quem ali viveu. E ao longo da avenida, as árvores e as acácias-rubras, com o seu vermelho vivo, pontuavam a paisagem e pareciam disputar protagonismo com o azul largo do céu.

Eram tempos de uma beleza simples. A poeira nos sapatos não era sujidade: era sinal de pertença.

Ao olharmos para esta fotografia, quase conseguimos sentir o calor da tarde. Quase ouvimos, ao longe, o motor de um Land Rover, de uma carrinha de caixa aberta ou de outro veículo que surgia levantando uma nuvem de pó. E, no entanto, por detrás dessa imagem de progresso e movimento, havia uma paz muito própria, uma harmonia serena entre o desenvolvimento que avançava e a terra que continuava a moldar o quotidiano.

O edifício de linhas direitas, ao fundo, falava de um futuro que chegava a passos largos. Mas para quem ali cresceu, o essencial estava talvez noutra parte: naquela familiaridade das avenidas largas, naquele ritmo sem pressa, naquela convivência entre o moderno e o simples, entre a construção do amanhã e a permanência da terra de sempre.

Eram tempos de uma beleza despretensiosa. Tempos em que a poeira nos sapatos não era sujidade. Era a marca natural de quem tinha caminhado pela sua terra, de quem vivia o Cubal por dentro e por fora, na luz, na rua, no comércio, no movimento e na memória.

Esta não é apenas uma fotografia de uma avenida. É um retrato de um tempo. Um tempo em que o Cubal crescia, sonhava e avançava, sem perder a sua alma. E talvez seja por isso que imagens como esta ainda hoje nos tocam tanto: porque nelas reconhecemos não apenas um lugar, mas uma forma de viver.

Fica, como sempre, o convite a quem souber acrescentar memória a esta imagem: identificar melhor o local, corrigir algum detalhe, recordar histórias, nomes ou episódios ligados a esta zona da vila. Cada contributo ajuda a reconstituir, com verdade e carinho, a história do nosso Cubal.

Porque o pó das estradas assentou há muito.
Mas a memória de quem por elas passou continua viva.

Ruca
Cubal Angola Terra Amada!
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14 março 2026

Reportagem do Emissor Regional do Cubal (Reedição de um post do arquivo do blogue (2008)

📻 Documento do arquivo da rádio do Cubal
Reedição de um post do arquivo do blogue (2008)

No seguimento dos recentes artigos publicados no blogue sobre o Emissor Regional do Cubal, recuperamos hoje este registo fotográfico que já havia sido publicado anteriormente neste espaço.

A fotografia, gentilmente partilhada pela família Pena, através de Sílvia Pena, mostra um momento de reportagem do Emissor Regional do Cubal (delegação do Rádio Clube de Benguela) durante as comemorações do aniversário do Banco de Angola no Cubal, em 1967.

Este tipo de registos recorda-nos que a rádio do Cubal não se limitava às emissões de estúdio. Os seus profissionais acompanhavam também acontecimentos da comunidade, realizando reportagens e dando voz à vida da vila.

A legenda manuscrita no verso da fotografia refere ainda a presença do camarada Costa no evento.

Este documento integra hoje o conjunto de memórias que estamos a reunir sobre a história da rádio no Cubal.

🔎 Se reconhecer alguém nesta fotografia ou tiver alguma informação adicional sobre esta reportagem, agradecemos muito que deixe um comentário.

A memória do Cubal constrói-se com a ajuda de todos.


1. Numa reportagem do Emissor Regional do Cubal
(delegação do R.C.B. -Rádio Club de Benguela),
no aniversário do Banco de Angola do Cubal em 1967.
Juntamente com o camarada Costa.


Texto no verso da foto:Pena


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11 março 2026

O dia em que o Cubal ganhou voz -A inauguração do Emissor Regional do Cubal – 10 de Junho de 1967


 

MEMÓRIAS DO CUBAL • ARQUIVO HISTÓRICO • 1967

O dia em que o Cubal ganhou voz

A inauguração do Emissor Regional do Cubal – 10 de Junho de 1967
Três fotografias restauradas, um testemunho directo e um dia marcante da história radiofónica do Cubal.

A s imagens que hoje partilhamos têm o poder raro de nos transportar imediatamente para uma época em que a rádio era a principal janela para o mundo.

Com a data 10 de Junho de 1967 orgulhosamente inscrita nas fotografias originais, estas três preciosas imagens, gentilmente cedidas por Fernanda (Nanda) Valadas, mostram-nos os primeiros momentos de um marco histórico: a inauguração do Emissor Regional do Cubal.

As fotografias que aqui publicamos foram cuidadosamente recuperadas e tratadas digitalmente, procurando preservar o ambiente e a autenticidade das imagens originais, ao mesmo tempo que se corrigiram os efeitos naturais do tempo.

Nelas vemos o jovem sonoplasta Acácio Vieira, concentrado no trabalho técnico dentro do estúdio recém-estreado. Botões, mostradores analógicos, discos de vinil prontos a entrar em rotação e o silêncio controlado do estúdio formavam o coração técnico de uma emissão que começava ali a dar voz ao Cubal.

Arquivo Fotográfico • Emissor Regional do Cubal • 10 Junho 1967
Acácio Vieira 
ajustando o equipamento técnico no estúdio do Emissor Regional do Cubal no dia da inauguração – 10 de Junho de 1967.
Mas estas fotografias guardam também uma história humana muito bonita.

O que as imagens não mostram, mas que a memória revela, é que foi precisamente neste ambiente da rádio que Acácio Vieira e Fernanda Valadas se conheceram. O técnico e a futura locutora acabariam por unir os seus destinos, transformando aquele estúdio não apenas num espaço de trabalho, mas também no início de uma história de vida.

Fernanda Valadas recorda com orgulho ter sido a primeira locutora do Emissor Regional do Cubal.

O caminho até ao microfone exigiu preparação e rigor. Durante uma estadia em Benguela, onde foi passar férias a casa da irmã, realizou um período de estágio sob a orientação de António Freire, então responsável pelos locutores do Rádio Clube de Benguela.

Os testes eram exigentes. Gravava-se a voz, ouvia-se a gravação e vinham as correções.

“A pessoa a falar normalmente come sílabas, come palavras. No microfone tem de se dizer tudo como deve ser.”

Com essa preparação, Fernanda iniciaria a sua actividade precisamente no dia da inauguração do emissor, tornando-se assim a primeira locutora do Emissor Regional do Cubal.

Uma escola de rádio no coração do Cubal

O Emissor Regional do Cubal funcionava em estreita ligação com o Rádio Clube de Benguela, beneficiando do apoio técnico e da experiência de profissionais que ali se deslocavam com frequência.

Segundo as memórias partilhadas por Fernanda Valadas, pelo Cubal passaram ou colaboraram vários nomes marcantes da rádio da época, entre eles:

  • António Freire
  • Maria Inês
  • Maria Dinah
  • Gustavo Rosa
  • Linda Rosa
  • Maria de Fátima
  • Francisco Marques da Silva (técnico)
  • Mário Marques da Silva (locutor)

 Jaime Marques de Almeida e António Maia pertencem à memória do arranque do emissor que era também considerado um espaço de aprendizagem. Havia jovens curiosos que ali começavam a descobrir o mundo da rádio, aprendendo com técnicos e locutores mais experientes. Assim se transmitiam conhecimentos e se garantia a continuidade das emissões.

Arquivo Fotográfico • Estúdio do Emissor Regional do Cubal

Acácio Vieira 
junto da mesa técnica e dos gira-discos utilizados nas primeiras emissões da rádio no Cubal.

Um detalhe técnico muito curioso

Ao observar atentamente estas três fotografias restauradas, surge um pormenor particularmente interessante: a mesa técnica visível na terceira imagem é claramente diferente da que aparece nas duas primeiras.

Esse detalhe sugere que o estúdio poderia já contar, naquele tempo, com equipamentos distintos para funções diferentes, nomeadamente uma zona mais ligada à reprodução em gira-discos e outra associada ao controlo principal da emissão.

Mais do que simples retratos de época, estas fotografias acabam assim por constituir também um pequeno documento técnico do estúdio do Emissor Regional do Cubal, ajudando-nos a perceber melhor a forma como aquele espaço estava organizado.

Arquivo Fotográfico • Painel Técnico do Estúdio

Acácio Vieira
Painel de controlo do estúdio do Emissor Regional do Cubal, verdadeiro coração técnico das primeiras emissões radiofónicas da vila.

Ecos da grande rádio angolana

Entre os grandes nomes da rádio angolana dessa época recorda-se também Sebastião Coelho, figura muito popular entre os ouvintes.

Muitos ainda guardam na memória o seu programa nocturno “Café da Noite”, patrocinado pela Casa Campeão. Ficou especialmente gravada na lembrança dos ouvintes a expressão publicitária que lhe era associada e que tantos ainda hoje recordam:

“Aí u é Campeão tem á frutuna na mão.”

Para muitos ouvintes, sobretudo nas noites longas de Angola, aquela voz tornava-se companhia habitual. Esta frase, mantida aqui tal como era dita e recordada, faz parte dessa memória radiofónica popular ligada ao nome de Sebastião Coelho.

Maria Dinah, recordada nestas memórias, viria também a trabalhar com Sebastião Coelho e continuaria mais tarde a sua vida profissional na Venezuela, onde acabou por falecer há alguns anos.

Memórias que continuam a ecoar

Ao longo dos anos, o Emissor Regional do Cubal tem sido um tema recorrente neste espaço. As histórias, testemunhos e fotografias que vão surgindo ajudam a reconstruir a importância que a rádio teve na vida da comunidade.

Para quem quiser continuar a explorar estas memórias, vale a pena revisitar alguns artigos já publicados no blogue:

Estas três fotografias são, por isso, muito mais do que simples imagens antigas. São testemunhos de um dia em que o Cubal ganhou voz nas ondas da rádio.

Fica aqui o nosso agradecimento a Fernanda Valadas, por abrir o seu álbum de fotografias e a sua memória, permitindo-nos partilhar com todos mais este fragmento precioso da história do Cubal.

Que o som destas memórias continue a ecoar.

Nota para os leitores

A memória colectiva constrói-se com muitas vozes. Se algum leitor  desejar corrigir, complementar ou acrescentar informações, nomes, datas, episódios ou pormenores relacionados com o Emissor Regional do Cubal, ficaremos muito gratos pela sua partilha.

Cada contributo ajuda a enriquecer e preservar esta história que pertence a todos.

Se preferir, pode também enviar informação através da página do blogue no Facebook.

DOCUMENTO DE MEMÓRIA • CUBAL ANGOLA TERRA AMADA

Atualização — Memórias acrescentadas pelos leitores

Após a publicação deste artigo no blogue e a sua partilha na página do Cubal Angola Terra Amada no Facebook, chegaram novos comentários e testemunhos que ajudam a enriquecer a memória do Emissor Regional do Cubal.

Entre essas partilhas, a nossa amiga Tucha Garcia, que trabalhou na rádio, recorda com emoção alguns dos nomes que marcaram aquela época e que foram para ela verdadeiros mestres:

  • Acácio Vieira
  • Marques da Silva
  • Fernando Henrique Pires
  • Liliana Sousa

Mais tarde, recorda também a presença de Jaime Marques de Almeida, que participava nas emissões noturnas, nomeadamente no programa “Boa Noite”.

Aos domingos era transmitido o programa “Um Domingo em São Francisco”, apresentado por Fernando Henrique Pires.

Segundo os testemunhos agora reunidos, passaram também pelo emissor ou colaboraram nas suas emissões nomes como:

  • Fernanda Valadas
  • Lurdes Morais
  • Anabela Espinha
  • Arlindo Faial
  • Liliana Sousa

Outro dado importante foi acrescentado pelo nosso amigo Fernando Henrique Pires, que recorda que, após a saída de Marques da Silva, a direção do emissor foi assumida por Rodrigo Guerra, conhecido entre amigos como “Bibito Guerra”.

Segundo as memórias partilhadas, Bibito Guerra era uma presença muito atenta no funcionamento da rádio, acompanhando de perto o trabalho dos colaboradores e ajudando a manter o rigor das emissões.

Entre os comentários recebidos, surgiram também referências a outros episódios e pessoas ligadas à vida cultural do Cubal, como recorda Maria De Abreu, mencionando familiares seus ligados ao meio musical do Clube Ferrovia.

Outro contributo importante surge ligado a um artigo anterior do blogue, O Baú de Memórias do António Pereira.

Nesse testemunho, foi esclarecido que António Pereira não trabalhou diretamente no Rádio Clube, tendo sido apenas um orgulhoso sócio da instituição. Quem de facto deu voz à estação foi o seu cunhado, Rui Serpa, que exerceu funções como locutor.

Fica igualmente registado que Rui Serpa e o seu irmão Alcino Serpa vivem atualmente no Cubal, mantendo assim uma ligação viva à terra onde esta história se desenrolou.

Cada comentário recebido acrescenta um novo fragmento a esta memória coletiva.

É precisamente assim que a história do Cubal continua a ser reconstruída: através das lembranças de todos aqueles que viveram estes tempos.

Um arquivo vivo de memórias

O objetivo do Cubal Angola Terra Amada é preservar e reunir as memórias de todos aqueles que viveram, trabalharam ou passaram pelo Cubal.

Se algum leitor desejar corrigir, complementar ou acrescentar informações, nomes, datas ou episódios relacionados com o Emissor Regional do Cubal, ficaremos muito gratos pela sua partilha.

Cada contributo ajuda a enriquecer e a preservar esta história que pertence a todos.


Ruca
Cubal Angola Terra Amada!
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08 março 2026

Um belo testemunho cubalense


 

Um belo testemunho cubalense

Memórias do convívio e da vida social do Cubal


Mais uma preciosa memória a enriquecer o nosso baú de recordações do Cubal.

Desta vez, o testemunho chega-nos através de Olívia Borges (Abreu), que muitos recordarão com enorme carinho como a nossa querida Professora Bia.

Neste belo registo fotográfico, que nos transporta de imediato para os agradáveis convívios e para a vibrante vida social da nossa terra, vemos um grupo reunido à volta de uma mesa, num momento de tranquila e alegre descontração. São instantes como este, simples mas cheios de alma, que ajudam a compor a memória afetiva de uma comunidade.

A Olívia identifica-se sentada do lado esquerdo da fotografia e refere também a presença da Professora Filó Carvalho.

Quanto ao local exato, não existe ainda total certeza, mas é muito possível que este encontro tenha tido lugar no Clube Ferrovia do Cubal ou no Recreativo do Cubal, dois espaços bem presentes na vida social e no quotidiano da nossa terra.

Quem consegue identificar os restantes rostos desta fotografia?

Os dois cavalheiros e as restantes senhoras que partilhavam este momento de convívio serão certamente reconhecidos por alguém. E talvez haja também quem nos possa ajudar a confirmar o local onde a fotografia foi tirada.

Apelamos a todos os cubalenses, antigos residentes, familiares e amigos, para que deixem o seu contributo nos comentários. Um nome, uma recordação ou uma pequena história podem ser preciosos para completar este retrato de um tempo que continua vivo no coração de tantos.

Assim, passo a passo, vamos reconstruindo a memória viva do Cubal, com respeito, verdade e emoção.


Cubal Angola Terra Amada

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Ruca

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14 fevereiro 2026

Ecos de folia e saudade: O inesquecível Carnaval cubalense

 O Baú da Folia: Recordar o Carnaval no Cubal 

É tempo de Carnaval e, como manda a tradição neste nosso cantinho de memórias, o passado volta a ganhar cor e vida. Desta vez,  a nossa querida amiga Fernanda Valadas (Nanda) que, não querendo deixar passar esta época festiva em branco, abriu o seu álbum pessoal para nos brindar com excelentes testemunhos que engrandecem a história cubalense.

São imagens que nos transportam para dias de riso fácil, de mascaradas criativas e daquela alegria genuína que se vivia no Cubal. Vamos fazer uma viagem
no tempo, guiados por estas relíquias fotográficas.


Fernanda e Margarete - 1958]
Recuamos até ao dia 18 de Fevereiro de 1958. A fotografia, com aquela patine do tempo que tanto gostamos, mostra-nos a Fernanda Valadas, então com 9 anos, e a pequena Margarete (Letinha), com apenas 3 aninhos. Havia um encanto especial na forma como as crianças viviam o Entrudo, vestidas a rigor, num tempo em que a brincadeira era a coisa mais séria do mundo.
Cidália e Fernanda - 1966]



Fernanda Valadas - 1966


Damos um salto para a década seguinte, a vibrante década de 60. Estamos no dia 5 de Fevereiro de 1966, num dos famosos "assaltos carnavalescos" — aquelas festas espontâneas que animavam as noites da nossa terra. Desta vez, o palco foi a casa do Inspetor Marques Monteiro. Nas imagens, vemos a Cidália e a Fernanda, e num outro registo, a Fernanda a posar a solo, encarnando o espírito folião da juventude da época.

Grupo Musical Improvisado - 1966

A festa continuou no dia seguinte, 6 de Fevereiro de 1966, no mesmo local. A animação era tal que se formou um verdadeiro conjunto musical improvisado! Nesta magnífica foto de grupo, reconhecemos a Cidália, a Dolly, a Nanda Valadas, a Fernanda Silva, a Teresa Almeida e a Fátima Proença. E, a completar o quadro com um ar doce, a pequenita Auzenda Silva. Momentos de pura camaradagem que ficaram eternizados.

Futebol de Salão e troca de 'galhardetes' - 1966

Ainda em Fevereiro de 1966, especificamente no dia 22, o desporto juntou-se à brincadeira. O Cubal assistiu a um jogo de Futebol de Salão Feminino entre o Instituto Liceal e o Académico. A imagem capta o momento hilariante da "troca de galhardetes" (que, como se vê, eram bem originais!). Vemos a Nanda Valadas, o Sr. Correia e a Locas, com a Fátima Proença em segundo plano.


Grupo misto  - 1967

Um ano depois, a 7 de Fevereiro de 1967, o Carnaval continuava a unir as gentes. Esta bela imagem, gentilmente ofertada pelo Necas, mostra-nos o Maia, a Nanda Valadas, o Carlos Canais,  Cidália  e Necas.

Margarete e Beto - 1972

Avançamos para a década de 70. Nesta imagem de 1972, vemos a Margarete (Letinha) Valadas e o Beto, de saudosa memória. Os trajes mudam, a moda evolui, mas o olhar cúmplice e a alegria da festa permanecem intocáveis.



Família Valadas no Clube - 1973

Terminamos esta viagem no Carnaval de 1973, no coração social da nossa terra: o Clube Recreativo. Vemos a Família António Valadas no salão de festas, aquele espaço que foi palco de tantos romances, amizades e noites inesquecíveis.

Um agradecimento muito especial à Fernanda Valadas por partilhar connosco este tesouro. É através destas imagens que o Cubal continua vivo nos nossos corações. - ruca

💬 Comentários e Memórias

O BAÚ DE MEMÓRIAS DO ANTÓNIO PEREIRA: RELÍQUIAS DE 1973 E 1975

 A magia deste nosso espaço de partilha é esta: a história constrói-se com a participação de todos. Mal acabámos de recordar o Emissor Regional do Cubal no nosso último texto (clique para ler), o nosso amigo e leitor António Manuel Pereira abriu o seu baú de recordações.

O António fez-nos chegar duas preciosidades que são verdadeiros documentos históricos da vivência no nosso Cubal. Papéis que o tempo amareleceu, mas não apagou.

Cartão de Sócio n.º 326 do Emissor Regional do Cubal (1973)

Reparem na data deste primeiro documento: 1 de Julho de 1973. É o Cartão de Sócio n.º 326 do Emissor Regional do Cubal.

Este pequeno cartão é a prova viva de que a nossa rádio não vivia apenas de antenas e estúdios, mas de uma comunidade que a sentia como sua. Ser sócio do Emissor era um ato de pertença e de orgulho, uma forma de dizer "esta voz é nossa".

Livre Trânsito da época 1975 - C. B. Recreativo do Cubal

Mas o Cubal também era terra de desporto e paixões aos domingos. O segundo documento transporta-nos para um ano marcante: 1975.

Aqui vemos o Livre Trânsito da Associação Distrital de Futebol de Benguela, identificando o António Manuel da Silva Pereira como jogador Sénior do nosso saudoso Clube B. Recreativo do Cubal. Num ano de tantas incertezas e mudanças, o futebol continuava a ser o refúgio e a alegria que unia a vila em volta do campo.

NOTA DE ESCLARECIMENTO E MAIS MEMÓRIAS

Em conversa posterior connosco, o amigo António Pereira fez questão de acrescentar alguns detalhes importantes que enriquecem esta partilha:

📻 Sobre a Rádio: O António esclarece que não trabalhou no Rádio Clube, foi apenas um orgulhoso sócio (como comprova o cartão). Quem de facto foi locutor e deu voz à estação foi o seu cunhado, Rui Serpa. Aproveitamos para informar que o Rui Serpa, juntamente com o irmão Alcino Serpa, vivem atualmente no Cubal.

⚽ Sobre o Futebol: O "Livre Trânsito" conta a verdade! O António confirmou que foi jogador do Recreativo durante 4 épocas. Desses tempos áureos, recorda ter partilhado o balneário e o campo com colegas como Cristina, Telmo, Eusébio, Porto e Tomás, entre outros. Nomes que certamente muitos recordam!



Um agradecimento muito especial ao António Pereira por partilhar connosco estes tesouros pessoais. Mais do que documentos, são pedaços da nossa identidade que hoje voltam à luz do dia.

E o caro leitor? Ainda guarda na carteira ou nas gavetas algum cartão de sócio, bilhete de cinema ou documento dessa altura?

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05 fevereiro 2026

SINTONIA DE SAUDADE: O EMISSOR REGIONAL DO CUBAL E OS NOSSOS DOMINGOS

Se fecharmos os olhos, quase conseguimos ouvir a estática e, logo a seguir, a voz clara que entrava pelas nossas casas: "Aqui fala o Emissor Regional do Cubal". Situado na Rua Campo de Aviação, este edifício era muito mais do que betão; era um farol de cultura e um elo de ligação entre todos nós.

 Emissora Oficial de Angola - Sede do Emissor Regional do Cubal

Quem não sente um aperto no peito ao recordar as tardes domingueiras? Era o momento sagrado da semana em que nos habituámos a ouvir os famosos "Discos Pedidos". Mais do que música, aquele programa era uma ponte de afetos: dedicatórias a namoradas, mensagens para familiares distantes e os parabéns aos aniversariantes. Aquele rádio, sintonizado na frequência certa, era a banda sonora dos nossos almoços de família e das tardes de descanso.

Contudo, a história tem capítulos mais duros. A imagem que hoje destacamos, captada e partilhada pelo nosso amigo Henrique Faria em 24 de Julho de 2008, mostra-nos a realidade nua e crua do que restava dessas instalações décadas depois. É um registo visual impactante, que documenta o estado de abandono a que chegou aquele que foi um orgulho da nossa terra, onde apenas o silêncio substituiu a música.

Registo de 24 de Julho de 2008, por Henrique Faria

Apesar das paredes desgastadas que a fotografia de 2008 nos mostra, as memórias permanecem vivas. Não podemos esquecer que foi nestes corredores que grandes profissionais deram os primeiros passos. É o caso do nosso ilustre cubalense Jaime Marques de Almeida, que aqui iniciou a sua carreira profissional, levando a experiência e a "escola" adquirida no Emissor Regional para voos mais altos.

Olhar para estas duas realidades — a alegria dos "Discos Pedidos" e a ruína de 2008 — serve para avivar a nossa memória coletiva. Não para nos prendermos à tristeza, mas para celebrarmos a importância do que ali foi construído.


Para viajar no tempo através do nosso arquivo:

E o caro leitor? Chegou a dedicar alguma música ou a receber alguma mensagem através do nosso Emissor? Partilhe connosco as suas recordações desses domingos e não apenas, mas histórias que nos relembrem os anos de ouro da rádio cubalense.

-ruca


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02 fevereiro 2026

O palco da infância: Elsa Pais e Álvaro Ferreira numa récita dos anos 50

Elsa Pais e Álvaro Ferreira. 
Foto: Zé Carlos Ferreira

Recuamos hoje aos dourados anos 50, a um tempo em que o Cubal também se vestia a rigor para a cultura e para a festa. Esta fotografia, uma relíquia cedida pelo Zé Carlos Ferreira, transporta-nos para o cenário de uma récita infantil, onde duas crianças posam com a seriedade solene que o momento exigia.

Eles são a Elsa Pais e o Álvaro Ferreira. Ela, num vestido de folhos impecável, com o cabelo arranjado ao pormenor; ele, aprumado com o seu lenço ao pescoço, talvez encarnando um camponês ou uma figura folclórica numa peça de teatro escolar.

A imagem, contudo, traz consigo um misto de beleza e de saudade profunda. Nos comentários que acompanham esta memória, o Zé Carlos Ferreira recorda com emoção o seu "querido e saudoso irmão Álvaro", evocando também a beleza da Elsa, uma "miúda lindíssima" que marcou a sua geração.

A caixa de comentários acabou por se tornar, também ela, um lugar de homenagem e despedida. A Fernanda Valadas Vieira trouxe a notícia que o tempo, implacável, se encarregou de escrever: a Elsa, tal como a restante família Pais (incluindo o Alexandrino, a Lila e o Zeca), já partiu há muitos anos. Foi um momento de revelação dolorosa para a Tucha Garcia, que finalmente compreendeu o silêncio das cartas que deixaram de ter resposta: "Paz à tua alma, Elsa".

Esta fotografia deixa de ser apenas um registo de uma festa escolar para se tornar um monumento à memória deles. Ficam os fatos de gala, o brilho nos olhos e a certeza de que, no álbum do Cubal, eles serão sempre aquelas crianças prontas para entrar em palco, sob os aplausos de uma terra que não os esquece.

-ruca

Créditos:
Foto cedida por: Zé Carlos Ferreira
Informação histórica: Fernanda Valadas Vieira

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01 fevereiro 2026

Parece que foi ontem: A juventude do Cubal num retrato eterno

 


Jovens do Cubal

Há frases que resumem tudo, e o comentário da Ana Bela Faustino nesta fotografia diz o essencial: "Parece que foi ontem". Ao olharmos para este grupo de jovens do Cubal, congelado no tempo pela objetiva de uma máquina fotográfica, é impossível não sentir a energia vibrante de uma geração que cresceu entre a liberdade da terra e a força das amizades que duram uma vida inteira.

A imagem, mais uma partilha preciosa da Fernanda Valadas, funciona como um puzzle de afetos. Nos comentários, os amigos reuniram-se para devolver a identidade a cada rosto, num exercício coletivo de memória que é tão bonito quanto a própria foto.

Lá estão eles, alinhados com a moda da época e o sorriso pronto. De pé, reconhecemos figuras como o João Proença e a Milena, a Mibel (que a Fernanda fez questão de retificar, para que a memória não falhe), a Celeste, a Lília, a Betinha e a própria Ana Bela Faustino.

Em baixo, com a descontração típica de quem se sente em casa, o grupo completa-se com o Álvaro, o Pires, o Sampaio, o João Silva e o Nando Vaz. A pose do rapaz em primeiro plano, de braços abertos, parece querer abraçar o momento, segurando aquela alegria para que não fugisse.

O João Mário Campanha resume o sentimento geral com uma única palavra: "Saudades". E é verdade. A saudade não é apenas das pessoas, mas daquele Cubal onde estes laços se formaram. Onde cada festa, cada encontro e cada fotografia eram vividos com uma intensidade que hoje, à distância de décadas, ainda nos aquece o coração.

Que esta imagem sirva para recordar não apenas os nomes, mas o espírito de uma juventude que o tempo não conseguiu apagar.

-ruca

Créditos:
Foto cedida por: Fernanda Valadas Vieira
Colaboração na identificação: Ana Bela Faustino, António Lopes Mendes


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As ondas do rádio e as árvores de macarrão: O inesquecível Alexandrino Pais


 

Alexandrino Pais.

Há figuras que, mais do que habitar um lugar, tornam-se parte da sua própria alma. No Cubal, terra de gente com memória forte, o Alexandrino Pais foi um desses rostos que dispensam apresentações. A fotografia, gentilmente cedida pela Nanda Valadas, devolve-nos um desses instantes perfeitos: o Alexandrino, de camisa aberta e ar descontraído, segurando aquele rádio portátil como quem segura o mundo nas mãos.

Era uma "figura caricata", como dizem com carinho os amigos, mas acima de tudo era um mestre do improviso e da boa disposição. O rádio que exibe na imagem não era apenas um aparelho; era talvez a extensão da sua própria vontade de comunicar, de trazer as "notícias frescas" que a Tucha Garcia recorda com tanta saudade. Ele tinha o dom de arrancar gargalhadas, transformando o quotidiano numa comédia viva.

Mas o que seria do Cubal sem as suas lendas urbanas (ou rurais)? A Maria Helena Carvalho recordou, e bem, a faceta mais fantasiosa do Alexandrino: a célebre plantação de macarrão. Com a maior seriedade do mundo, era capaz de convencer os mais incautos de que possuía árvores de macarrão com cinco metros de altura. Era preciso ter arte para contar estas histórias sem se desmanchar a rir, mantendo a plateia suspensa na dúvida entre a verdade e a galhofa.

O Celestino Alves Geral, seu "sócio" nestas andanças, lembra-se bem dessa postura. Quando apareciam forasteiros ou pessoas que não conheciam as manhas da terra, o Alexandrino não gaguejava. Vestia a pele de grande fazendeiro e discorria sobre os assuntos da lavoura imaginária com uma convicção tal que a ficção se tornava, por momentos, realidade.

Esta imagem a preto e branco é um bilhete de regresso a esse tempo. Um tempo em que a rádio tocava as músicas da moda, em que se conversava nas esplanadas e em que figuras como o Alexandrino Pais davam cor aos dias do Cubal, provando que a vida se deve levar com leveza e, sempre que possível, com um sorriso nos lábios.

-ruca

Créditos:
Foto cedida por: Nanda Valadas


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