O nosso amigo Rodrigo Guerra (o conhecido Bibito) partilha connosco mais este excelente momento da história cubalense. Uma viagem no tempo até 1944, recheada de humor, rivalidade e daquela vivacidade única das nossas gentes.
Nota prévia: O autor refere-se carinhosamente ao "dia da Cidade". Importa recordar, pela precisão histórica, que em 1944 o Cubal ostentava ainda o estatuto de Vila (a elevação a cidade ocorreria mais tarde), mas como verão nesta estória, o espírito da festa e o orgulho local já eram de uma verdadeira metrópole.
Fiquem com este relato delicioso de uma corrida de bicicletas que acabou... bem, leiam e vejam como acabou!
UMA CORRIDA DE BICICLETAS
Corria o ano de 1944. 15 de Agosto, 3.ª Feira.
O Cubal estava em festa.
Logo ao romper d’alva a população era acordada por um foguete morteiro de um tiro, que se ouvia no Chimbasse, começando a Banda do velho Sambo a tocar e a marchar percorrendo as ruas da povoação, acompanhada por todo o percurso por foguetes de sete tiros. Estavam iniciadas as Festas.
Não existia ainda o Recreativo e a festa era ao ar livre, num arraial montado num terreno baldio ali no quarteirão em frente ao que seria mais tarde destinado à construção do Recreativo.
Barracas feitas com paus de sisal amarrados, cobertas a capim, serviam de abrigo às mais diversas atrações – tômbola, rifas, tiro ao alvo, bola ao pato, e, como não poderia deixar de ser, comes-e-bebes, a mais frequentada. Numa das laterais do terreno, uma barraca destacava-se por ser mais elevada, tipo palafita, com um estrado de madeira leve montado sobre estacas fincadas no chão. Era a barraca destinada à banda de música do velho Sambo, do Bailundo, contratada para animar os festejos.
Naquele Domingo, aconteceria um dos pontos altos do programa: uma corrida de bicicletas. Não pela corrida em si, mas pela velha e acirrada rivalidade Cubal/Ganda que ela representaria, desta feita personalizada por dois dos corredores que polarizavam as atenções e em quem, de um lado os cubalenses e do outro os gandenses, depositavam as suas esperanças.
Pelo Cubal correria o Aguiar, um transmontano franzino, nervoso, do tipo “mais-vale-quebrar-que-torcer” que encontrava, numa obstinação inabalável e vontade férrea, a farta compensação para o pouco físico com que era dotado. Pela Ganda, corria o Domingos, um jovem negro de porte atlético, todo músculos, esbanjando saúde, que os gandenses tinham ido buscar à Chimboa da Ganda, por não terem achado, em sua terra, alguém que tivesse aceitado a responsabilidade de defrontar-se com o Aguiar (meu grande e saudoso amigo que recordo com saudades).
Lá estavam os corredores postados na linha de partida, esperando o sinal.
O circuito era no sentido anti-horário, com a partida e chegada bem em frente ao arraial, curva à esquerda na esquina do quintalão do velho Valentim (onde mais tarde seria o Armazém de Víveres do CFB), descida pela rua da Estação, curva à esquerda na esquina da loja do Guerra, em frente pela rua principal, nova curva à esquerda na esquina do Aurélio Pires (depois loja Candimba), subindo até à esquina do Pereira de Lemos e, de novo, curva à esquerda para passarem pelo arraial, começando tudo de novo. Seriam dez voltas no total.
Tudo preparado, soou o apito dando início à competição. Eram uns dez ou doze corredores mas, logo à partida, dois se destacaram do pelotão. Isso mesmo, o Aguiar e o Domingos. Alarido geral dos assistentes. Logo na primeira curva, o Aguiar tomou a dianteira, aumentando a vantagem na segunda, muito próxima. A multidão que se aglomerava na linha de partida dividiu-se, correndo para ambas as ruas transversais, do Nunes e do Cardoso, para verem os corredores passar pela rua principal.
Para quem estava na primeira transversal, o Aguiar ainda mantinha a primeira posição. Porém, os da transversal do Cardoso já viam o Domingos com ligeira vantagem.
Na esquina do Pereira de Lemos já o Aguiar tomava a frente, mas por pouco tempo pois, por alturas do Valadas (futuro), o Domingos adiantava-se e passava pelo arraial comandando o pelotão.
A história repetiu-se, volta após volta. Mais leve e, provavelmente mais habilidoso, o Aguiar dava-se bem nas curvas. Porém, nas retas, as possantes e vigorosas pedaladas do Domingos não lhe deixavam a mínima chance.
Já os cubalenses previam o desfecho e, possivelmente, lamentavam-se mentalmente por não terem marcado a meta de chegada logo após uma curva. Frustração para os cubalenses, euforia para os gandenses que gritavam feitos possessos a cada passagem dos dois contendores.
A certa altura, os competidores passaram a ser só os dois porque os restantes desistiram, uns por moto próprio e outros por impossibilidade pois, a cada passagem da dupla Aguiar/Domingos, a multidão tomava a pista completamente, ávida para ver o resultado na próxima curva.
De repente, à esquina do Pereira de Lemos, divisaram-se três figuras avantajadas: o Miguel Fernandes (tio do Silva ponta esquerda), o Bernardino Caetano e o Pereira da Silva. Três homenzarrões, companheiros inseparáveis, amigos de uma cerveja em dias de folga e para quem uma briguinha era sempre bem-vinda.
Na penúltima volta, quando os dois concorrentes desfaziam a curva, o Bernardino Caetano gritou para o Aguiar:
— Força, Aguiar, que na última ele cai.
Se bem o disse, melhor o fez. Na última volta, o Caetano já munido de uma tranca, pedida emprestada ao Pereira de Lemos, esperou os corredores e, à sua passagem, saltou à pista e desfechou uma trancada nas costas do Domingos, que perdeu o equilíbrio e se estatelou.
Ato contínuo, o arraial transformou-se em campo de batalha. O chefe do posto administrativo, Santos Duarte, confiando na autoridade de que era investido e na farda que vestia, foi o primeiro a cair por terra com um soco de um gandense.
A esta altura, generalizou-se a contenda. Era o arraial todo e suas adjacências tomados pela desordem. Ali, o Jorge da Silva vibrava um tronco de folha de palmeira, das que serviam para enfeitar o arraial, na cabeça do Pinto, fotógrafo da Ganda, atingindo-lhe a orelha esquerda e prostrando-o desmaiado.
A certa altura, um grupo de beligerantes foi de roldão contra uma das estacas que sustentava o estrado da banda, derrubando a barraca, instrumentos e músicos que, entretanto, tinham começado a tocar a “Morena, Linda Morena” na vã intenção de acalmar os ânimos. Foi uma mistura de gente, trompetes, trombones, saxofones, bombos, músicos e partituras espalhados pelo chão.
Terminou a briga com a chegada do Miguel Fernandes, o Bernardino Caetano e o Pereira da Silva que reforçaram as hostes cubalenses.
— Vocês pagam – gritavam os gandenses abandonando o “campo de batalha”.
— Vocês pagam quando forem à Ganda. Nós estamos lá à vossa espera.
— Vocês não têm nada – gritavam os cubalenses – o Domingos é da Chimboa que vocês nem corredores têm. Nós vamos dar a taça ao Domingos, não a vocês.
Assim, os cubalenses ficaram livres do vexame de entregar a taça para a Ganda.
Entretanto, à noite, já tudo consertado, todos se divertiram num animado baile até ao raiar da aurora, com a participação de muitos gandenses que resolveram participar. Afinal, éramos todos amigos... desde que não houvesse uma competição...
Rodrigo (Bibito) Guerra

Mais um excelente trabalho do meu querido amigo Ruca. Grande abraço.
ResponderEliminarPresumo que o comentário seja do meu querido amigo Bibito. Forte abraço. Nós é que agradecemos os belos testemunhos. Deus te preserve e à família. -
ResponderEliminarMelhor relato dessa Competição é impossivel.Parabéns. Alberto Marques
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