O refúgio do Karivera: quando o fato-macaco era a farda da amizade
Há imagens que têm cheiro. Olhamos para elas e sentimos o aroma a tabaco, a óleo de motor e àquele perfume inconfundível da terra quente que entrava porta dentro. Esta fotografia, gentilmente partilhada pela Olívia Borges Lemos, é um desses bilhetes de ida e volta para um tempo em que o Cubal pulsava ao ritmo do trabalho e do convívio.
Estamos no Bar Karivera. Não há que enganar, nem a memória nos atraiçoa aqui. Era este o palco eleito, o verdadeiro refúgio dos homens no final da jornada.
A cena é de uma honestidade desarmante. Não há poses estudadas, apenas a vida como ela era. É provável que fosse uma pausa a meio da tarde ou aquele momento sagrado ao fim do dia, quando o sol já ia baixo e o corpo pedia descanso. Vê-se pelas garrafas de cerveja — a merecida recompensa fresca — e pelos maços de tabaco esquecidos sobre a mesa de fórmica.
À esquerda, com o fato-macaco azul tingido pelo ofício, reconhecemos o Sr. Borges. Julgo que, na altura, a sua casa era a oficina "Sérgio e Borges", uma das grandes referências da mecânica na nossa terra. Era um homem que conhecia os motores do Cubal como a palma da mão.
Esta imagem toca-me de forma particular, pois traz à memória esse tempo em que as oficinas eram o coração pulsante da vila/Cidade. Se o Borges representava uma dessas casas, a outra era a "A Reparadora Transmontana", do meu saudoso pai, Raúl. Eram tempos de muito trabalho, onde a concorrência no ofício convivia, como se vê aqui, com a amizade à mesa.
Ao lado do Borges, num contraste de autoridade descontraída, está o Viriato Borges — o pai da Olívia —, carcereiro de profissão, a esconder o olhar atrás dos óculos escuros. E, se a memória não falha, ali perto do Borges da oficina, temos o Toneco Lousa, o homem da recauchutagem e grande amigo, vizinho de ofício e de vida.
Mas fica a pergunta que só a memória coletiva dos cubalenses poderá responder: quem são os restantes companheiros de mesa?
Pela indumentária e pelo ambiente de descontração, atrevo-me a dizer que seriam os colaboradores destas casas. Seriam os colaboradores/mecânicos da oficina do Borges? A equipa da recauchutagem do Toneco? Ou até colegas do Viriato? Os rostos são familiares, gente de trabalho, gente nossa.
O convívio no Karivera era um ritual. Ali, limpava-se o suor do rosto, sacudia-se a poeira da roupa e, entre conversas sobre motores, pneus e a vida, fortaleciam-se os laços que o tempo não desata.
Quem consegue identificar os outros amigos nesta fotografia?
Ajudem-nos a completar a legenda desta história nos comentários.
-Ruca
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