As Memórias de António Freitas de Oliveira: Partes II e III
Damos continuidade à belíssima partilha do nosso conterra António Freitas de Oliveira. Depois do impacto do primeiro texto (clicar aqui - parte 1) , mergulhamos agora numa viagem de comboio pelo CFB, entre o nevoeiro da madrugada e o calor dos reencontros em Nova Lisboa (Huambo).
___________ Visitas na Nossa Terra - II "O som do vapor: viagens no Mala e aromas da Babaera"
Desço as escadas do Mala na Babaera... Noite avançada, o sopro do vapor cortado pelo frio da madrugada abraça o meu corpo numa sensação única, mistura de sentimentos próprios de atravessar África...
A parca iluminação amarela, harmonia dos cânticos dos grilos e coaxar das rãs, o latido do rafeiro na estrada de terra batida, ali o neon da Fina esbatido pelo voo do salalé, longe o guarda-freios acompanhado a petromax...
Surges do alpendre de face escondia pelo desluar, sinto a fragância e logo o esboço do sorriso que antecede o infinito beijo da ausência...o teu coração batia forte no demorado abraço.
- Sempre linda Estela, conheço o teu rosto mesmo sem te olhar, único.
- Continuas o eterno charmoso, desafiante, subimos ou ficamos pela Babaera?
- Claro que subimos, Nova Lisboa aguarda-nos.
Em silêncio o lento partir, força extraordinária da negra máquina que ambos admirávamos... iniciava o ritmo compassado das travessas, som extraordinário igualável ao doce beijar das ondas no Compão.
De mãos dadas acompanhávamos o esvoaçar atordoado das fagulhas misturadas com as estrelas do planalto, também me focava nas fotografias da construção do C.F.B. que ornamentavam a confortável cabine de madeira lustrosa.
O som distante da campainha leva-nos ao wagon restaurante, o culminar da viagem que tantas vezes fazíamos assim em jeito de amadurecer o amor, de o tornar eterno. A papaia vermelha, o sumo das laranjas de Cambambe, ovos mexidos bem de galinha da aldeia, as compotas nos frascos ingleses tinham o sabor dos teus lábios, o pão quente seria da fornalha? E o café Estela? O cheiro do café?
- Este café acompanha-me sempre, esteja em Lisboa, Paris ou Berlim, não há sabor e odor igual no mundo.
- Estela, Caála, quase a chegar, vamos?
@ntonioFreitasdeOliveira
___________ Visitas na Nossa Terra - III "Vivências no planalto: entre o Ruacaná e a Kambu"
Sempre diferentes os dias passados no Ruacaná. Estela contempla da janela do quarto o amanhecer de vida no cuidado quarteirão da baixa, abertura das lojas, quitandeiras, chegada de militares de passagem para o Luso, a esplanada da Kambu nos primeiros cafés da manhã.
Antes de iniciarmos o dia, passo os olhos pelo Planalto entregue pelo paquete...
- Vamos?
No hall, o cumprimento de sempre ao amigo Brandão. Estela tinha hora marcado na cabeleireira, aproveito e vou ao Vaz alinhar o ‘corte francês’. Na esquina da Farmácia Colonial encontro o ‘velho’ amigo Figueiredo, ’Pinguinhas’, acabado de estacionar a sempre impecável Chevrolet, ali trocamos as ultimas das famílias - Então esse Cubal? Progredindo meu caro amigo... mais um aceno ao Marta da Cruz que nos mira do outro lado do passeio.
Nesta cidade tão especial, ganhamos muito do tempo perdido, há sempre minutos para a troca de um abraço com os amigos, dois dedos de conversa... como se tivéssemos nascido todos ali...
Antes de me encontrar com Estela passo pela Lello, para o gira-discos o ultimo LP do Fausto Papetti e outro dos Platters, para leitura levo o Papillon de Henry Charrière. Almoçamos na Kambu - Manel, para mim o incomparável ‘filet mignon’, peça por favor ao Sr. Mário a garrafa de vinho do jantar... no privado animadamente os amigos Kai, Almeida Campos e Pinto Leite.
- Estela, estes são os meus melhores momentos, as viagens contigo no mala, este respirar na cidade vida, os passeios nocturnos no silêncio da noite após o cinema... por falar em cinema já tenho bilhetes para o Ruacaná, o tão desejado filme, ‘Un homme et une femme’.
- É sobre nós? Ou inspiração futura de uma vida a dois?
- Como gosto desse teu olhar brilhante, o movimento dos lábios no quase sorriso... se estivéssemos sozinhos...
(Continua brevemente)
@ntonioFreitasdeOliveira
Ai que saudades, destes tempos!...muitos de nós, para não dizer todos, atribuímos esta saudade à beleza de Angola, o que para mim, não é totalmente verdadeiro. Nós pensamos e sonhamos com Angola, porque a nossa geração quando viveu em Angola, era toda jovem. Isso sim nos faz recordar de Angola, sonhar com Angola, e quando nós decidimos ir percorrer todos esses locais, já não temos os nossos 15 ou 30 anos!...
ResponderEliminarPessoalmente, o que eu sinto de diferente, é que Portugal é muito pequeno, e aqui mata- se por um metro de terreno, quando lá, podíamos registar facilmente 100 ou duzentos hectares. No entanto, é muito lindo recordar uma viagem destas, e logo eu que tanto trabalhei entre Nova Lisboa e Lepi.
Que Maravilhoso Quadro Pintado pelo Artista ANTÓNIO FREITAS de OLIVEIRA.Os nomes dos intervenientes e os locais permanecem na memória. Lindo.Parabéns. OBRIGADO.Alberto Marques
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