Mostrar mensagens com a etiqueta Ced. Rodrigo (Bibito) Guerra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ced. Rodrigo (Bibito) Guerra. Mostrar todas as mensagens

16 janeiro 2026

O insólito endereço da Melancia: Uma memória de Santos Vilar, por Rodrigo (Bibito) Guerra

 

O insólito endereço da Melancia: Uma Memória de Santos Vilar


O nosso caríssimo amigo Rodrigo (Bibito) Guerra abre-nos novamente o baú das memórias para partilhar uma daquelas histórias deliciosas que só poderiam ter acontecido na nossa terra, num tempo em que a vida corria a um ritmo diferente e a ingenuidade andava de mãos dadas com a hospitalidade.

O encontro no antigo Hotel Central 
(imagem não real -foi criada pelo blogue do Cubal para a narrativa da história)

Esta é uma história verídica, muitas vezes contada pelo nosso bom amigo Santos Vilar, uma figura incontornável do Cubal.

Naqueles tempos áureos, o Santos Vilar explorava o Hotel Central (que viria mais tarde a ser o conhecido Hotel Rodrigues). Mas o seu espírito empreendedor não se ficava por ali; na rua de trás, mantinha também uma pequena lojinha, estratega e oportuna, que atendia os passageiros que desembarcavam do comboio, ali mesmo, a dois passos de distância.

Certo dia, entra na lojinha uma senhora. Vinha do Longonjo e trazia na bagagem a esperança de encontrar trabalho, afirmando ter muita experiência em serviço de hotelaria.

Com a humildade que o caracterizava, o Santos Vilar lamentou ter de informá-la que, naquele preciso momento, não tinha nenhuma vaga disponível no seu Hotel. Contudo, solícito, ofereceu-se logo para anotar o endereço dela. Se a sorte mudasse e surgisse uma oportunidade, ele avisaria.

A senhora agradeceu a gentileza e, antes de sair para continuar a sua procura de emprego pela vila, comprou uma bela melancia na loja.


O tempo passou e, como o destino gosta de pregar partidas, surgiu efectivamente uma vaga no Hotel. O Santos Vilar, homem de palavra, resolveu chamar a senhora do Longonjo. Escreveu a carta, preparou tudo e, só no momento de a colocar no envelope, é que se apercebeu da tragédia: tinha perdido o papel com o endereço!

E o que fez o Vilar? Desistir? Nem por sombras. Com a criatividade típica de quem desenrasca soluções, pegou na caneta e escreveu no envelope o seguinte endereço:

"Exma. Senhora que comprou uma melancia na minha Loja do Cubal
Longonjo"
(imagem não real -foi criada pelo blogue do Cubal para a narrativa da história) 

Poderia pensar-se que a carta ficaria perdida nos meandros dos correios, mas a magia das pequenas povoações operou o milagre. No Longonjo, o Chefe dos Correios era um jovem rapaz que costumava fazer as refeições numa pensão com amigos.

Entre garfadas e conversas, contou aos companheiros sobre aquela carta com o endereço mais estranho que alguma vez lhe passara pelas mãos. A história, caricata como era, espalhou-se como pólvora. Pouco tempo depois, já toda a pequena povoação conhecia o caso e, inevitavelmente, a destinatária foi identificada.

A senhora recebeu a carta "sem endereço" do Santos Vilar, provando que, em Angola, a boa vontade e o "passa-palavra" valiam mais que qualquer código postal.


Uma memória partilhada por:
Rodrigo (Bibito) Guerra

💬 Comentários e Memórias

20 dezembro 2025

Naquele tempo: As memórias de 1936 e o "milagre" da simplicidade no Cubal .Por Rodrigo (Bibito) Guerra

 


Naquele tempo: As memórias de 1936 e o "milagre" da simplicidade no Cubal

Por Rodrigo (Bibito) Guerra


Mais uma vez, o nosso querido Rodrigo "Bibito" Guerra abre o seu baú de memórias para nos presentear com um texto de uma riqueza incalculável. Desta vez, viajamos até 1936, ao ano do seu nascimento, para redescobrir um Cubal que poucos conheceram: um povoado de terra batida, iluminado a petróleo, onde a medicina era prática e a vizinhança era, verdadeiramente, uma família.

O Cubal era um pequeno povoado com ruas de terra batida, com poucos habitantes que conviviam como se de uma grande família se tratasse.

Em criança, jogávamos futebol na rua com toda a tranquilidade. Quando vinha um carro, buzinava e nós saíamos para lhe dar passagem. E não era difícil saber quem era, pois havia apenas três carros na povoação:

  • O do Luís da Silva (um Willys Overland do tempo dos dinossauros);
  • O do Zé Ilhéu (um belo Ford V8 modelo 1935);
  • E o do João de Oliveira (penso que um Nash).

Havia ainda um pequeno camião de carga de 5 toneladas, também do Zé Ilhéu, que viajava sempre com o seu cachorrão "Fiel" de pé no tejadilho — uma imagem que nunca esqueci.

As brincadeiras tinham os seus riscos, claro. Quando no calor do jogo chutávamos uma pedra em vez da bola e a unha do dedão se levantava a sangrar, a "farmácia" era imediata: colocávamos terra ou areia sobre o ferimento ou, método infalível da época, urinávamos sobre ele. Se o ferido não tivesse vontade de urinar, logo apareciam vários companheiros a oferecerem-se alegremente para o fazer! O curioso é que nunca houve casos de infeções graves com este "tratamento" de choque.

Foi neste cenário, no final do ano de 1936, em plena véspera de Natal, que eu nasci.

A minha parteira foi a Dona Maria Rodrigues, uma pessoa pouco letrada, que sabia assinar o seu nome e pouco mais, mas que possuía uma sabedoria imensa nas mãos. A sua ferramenta de trabalho? Uma tesoura, uma toalha, uma bacia destinada a água quente, um litro de álcool, algodão e gaze. Nada mais.

A povoação não tinha eletricidade nem água canalizada. A Dona Maria trabalhava à fraca luz de um candeeiro de petróleo — ainda nem tinham inventado o Petromax, que mais tarde daria uma luz parecida com a elétrica —, e utilizava água da cacimba (poço) que bebíamos sem medo.

Pois, nestas condições que hoje chamaríamos de "mais que precárias", ela conseguiu assistir todas as parturientes com sucesso, nas suas próprias casas. Eram todos partos naturais e todos resultavam em bebés saudáveis, como foi o caso da minha irmã (de quem a Dona Maria foi Madrinha), do meu irmão e o meu próprio.

Bem mais tarde, quando o Cubal já tinha evoluído e possuía duas Casas de Saúde com médicos e enfermeiros onde as parturientes eram atendidas, a Dona Maria costumava dizer, com a sua sabedoria antiga:

"Valha-me Deus, tanta complicação de coisa tão simples!"


Nota do Blogue/ Ruca: Esta história do Bibito deixa-nos a pensar na resistência e no desenrascanço daquelas gentes. Entre mezinhas de miúdos na rua e nascimentos à luz da candeia, o Cubal cresceu forte e saudável. Uma homenagem sentida à Dona Maria Rodrigues e a todas as parteiras que, com "quase nada", fizeram tanto pela vida na nossa terra.

💬 Comentários e Memórias

17 dezembro 2025

Cubal vs Ganda: A corrida de 1944 e a batalha campal - Por Rodrigo (Bibito) Guerra


O nosso amigo Rodrigo Guerra (o conhecido Bibito) partilha connosco mais este excelente momento da história cubalense. Uma viagem no tempo até 1944, recheada de humor, rivalidade e daquela vivacidade única das nossas gentes.

Nota prévia: O autor refere-se carinhosamente ao "dia da Cidade". Importa recordar, pela precisão histórica, que em 1944 o Cubal ostentava ainda o estatuto de Vila (a elevação a cidade ocorreria mais tarde), mas como verão nesta estória, o espírito da festa e o orgulho local já eram de uma verdadeira metrópole.

Fiquem com este relato delicioso de uma corrida de bicicletas que acabou... bem, leiam e vejam como acabou!


UMA CORRIDA DE BICICLETAS


Corria o ano de 1944. 15 de Agosto, 3.ª Feira.
O Cubal estava em festa.

Logo ao romper d’alva a população era acordada por um foguete morteiro de um tiro, que se ouvia no Chimbasse, começando a Banda do velho Sambo a tocar e a marchar percorrendo as ruas da povoação, acompanhada por todo o percurso por foguetes de sete tiros. Estavam iniciadas as Festas.

Não existia ainda o Recreativo e a festa era ao ar livre, num arraial montado num terreno baldio ali no quarteirão em frente ao que seria mais tarde destinado à construção do Recreativo.

Barracas feitas com paus de sisal amarrados, cobertas a capim, serviam de abrigo às mais diversas atrações – tômbola, rifas, tiro ao alvo, bola ao pato, e, como não poderia deixar de ser, comes-e-bebes, a mais frequentada. Numa das laterais do terreno, uma barraca destacava-se por ser mais elevada, tipo palafita, com um estrado de madeira leve montado sobre estacas fincadas no chão. Era a barraca destinada à banda de música do velho Sambo, do Bailundo, contratada para animar os festejos.

Naquele Domingo, aconteceria um dos pontos altos do programa: uma corrida de bicicletas. Não pela corrida em si, mas pela velha e acirrada rivalidade Cubal/Ganda que ela representaria, desta feita personalizada por dois dos corredores que polarizavam as atenções e em quem, de um lado os cubalenses e do outro os gandenses, depositavam as suas esperanças.

Pelo Cubal correria o Aguiar, um transmontano franzino, nervoso, do tipo “mais-vale-quebrar-que-torcer” que encontrava, numa obstinação inabalável e vontade férrea, a farta compensação para o pouco físico com que era dotado. Pela Ganda, corria o Domingos, um jovem negro de porte atlético, todo músculos, esbanjando saúde, que os gandenses tinham ido buscar à Chimboa da Ganda, por não terem achado, em sua terra, alguém que tivesse aceitado a responsabilidade de defrontar-se com o Aguiar (meu grande e saudoso amigo que recordo com saudades).

Lá estavam os corredores postados na linha de partida, esperando o sinal.

O circuito era no sentido anti-horário, com a partida e chegada bem em frente ao arraial, curva à esquerda na esquina do quintalão do velho Valentim (onde mais tarde seria o Armazém de Víveres do CFB), descida pela rua da Estação, curva à esquerda na esquina da loja do Guerra, em frente pela rua principal, nova curva à esquerda na esquina do Aurélio Pires (depois loja Candimba), subindo até à esquina do Pereira de Lemos e, de novo, curva à esquerda para passarem pelo arraial, começando tudo de novo. Seriam dez voltas no total.

Tudo preparado, soou o apito dando início à competição. Eram uns dez ou doze corredores mas, logo à partida, dois se destacaram do pelotão. Isso mesmo, o Aguiar e o Domingos. Alarido geral dos assistentes. Logo na primeira curva, o Aguiar tomou a dianteira, aumentando a vantagem na segunda, muito próxima. A multidão que se aglomerava na linha de partida dividiu-se, correndo para ambas as ruas transversais, do Nunes e do Cardoso, para verem os corredores passar pela rua principal.

Para quem estava na primeira transversal, o Aguiar ainda mantinha a primeira posição. Porém, os da transversal do Cardoso já viam o Domingos com ligeira vantagem.
Na esquina do Pereira de Lemos já o Aguiar tomava a frente, mas por pouco tempo pois, por alturas do Valadas (futuro), o Domingos adiantava-se e passava pelo arraial comandando o pelotão.

A história repetiu-se, volta após volta. Mais leve e, provavelmente mais habilidoso, o Aguiar dava-se bem nas curvas. Porém, nas retas, as possantes e vigorosas pedaladas do Domingos não lhe deixavam a mínima chance.

Já os cubalenses previam o desfecho e, possivelmente, lamentavam-se mentalmente por não terem marcado a meta de chegada logo após uma curva. Frustração para os cubalenses, euforia para os gandenses que gritavam feitos possessos a cada passagem dos dois contendores.
A certa altura, os competidores passaram a ser só os dois porque os restantes desistiram, uns por moto próprio e outros por impossibilidade pois, a cada passagem da dupla Aguiar/Domingos, a multidão tomava a pista completamente, ávida para ver o resultado na próxima curva.

De repente, à esquina do Pereira de Lemos, divisaram-se três figuras avantajadas: o Miguel Fernandes (tio do Silva ponta esquerda), o Bernardino Caetano e o Pereira da Silva. Três homenzarrões, companheiros inseparáveis, amigos de uma cerveja em dias de folga e para quem uma briguinha era sempre bem-vinda.

Na penúltima volta, quando os dois concorrentes desfaziam a curva, o Bernardino Caetano gritou para o Aguiar:
Força, Aguiar, que na última ele cai.

Se bem o disse, melhor o fez. Na última volta, o Caetano já munido de uma tranca, pedida emprestada ao Pereira de Lemos, esperou os corredores e, à sua passagem, saltou à pista e desfechou uma trancada nas costas do Domingos, que perdeu o equilíbrio e se estatelou.

Ato contínuo, o arraial transformou-se em campo de batalha. O chefe do posto administrativo, Santos Duarte, confiando na autoridade de que era investido e na farda que vestia, foi o primeiro a cair por terra com um soco de um gandense.

A esta altura, generalizou-se a contenda. Era o arraial todo e suas adjacências tomados pela desordem. Ali, o Jorge da Silva vibrava um tronco de folha de palmeira, das que serviam para enfeitar o arraial, na cabeça do Pinto, fotógrafo da Ganda, atingindo-lhe a orelha esquerda e prostrando-o desmaiado.

A certa altura, um grupo de beligerantes foi de roldão contra uma das estacas que sustentava o estrado da banda, derrubando a barraca, instrumentos e músicos que, entretanto, tinham começado a tocar a “Morena, Linda Morena” na vã intenção de acalmar os ânimos. Foi uma mistura de gente, trompetes, trombones, saxofones, bombos, músicos e partituras espalhados pelo chão.

Terminou a briga com a chegada do Miguel Fernandes, o Bernardino Caetano e o Pereira da Silva que reforçaram as hostes cubalenses.
Vocês pagam – gritavam os gandenses abandonando o “campo de batalha”.
Vocês pagam quando forem à Ganda. Nós estamos lá à vossa espera.
Vocês não têm nada – gritavam os cubalenses – o Domingos é da Chimboa que vocês nem corredores têm. Nós vamos dar a taça ao Domingos, não a vocês.

Assim, os cubalenses ficaram livres do vexame de entregar a taça para a Ganda.

Entretanto, à noite, já tudo consertado, todos se divertiram num animado baile até ao raiar da aurora, com a participação de muitos gandenses que resolveram participar. Afinal, éramos todos amigos... desde que não houvesse uma competição...

Rodrigo (Bibito) Guerra

💬 Comentários e Memórias

07 dezembro 2025

Memórias do Cubal: O Zeca Neves e a música "infernal" do Recreativo - Por Rodrigo (Bibito) Guerra

 

Memórias do Cubal: O Zeca Neves e a música "infernal" do Recreativo

Por Rodrigo (Bibito) Guerra


Ilustração do momento em que o Zeca Neves resolve o problema do disco.

-------

Hoje trazemos mais uma deliciosa história verídica do nosso Cubal, saída diretamente do baú de memórias do Bibito Guerra. É um episódio castiço que nos transporta para as tardes de domingo e para a inconfundível atmosfera do nosso Clube Recreativo.

O protagonista desta história é o Zeca Neves.

Para quem se recorda da geografia da nossa terra, o Zeca Neves morava naquela casa situada na esquina da Rua do Comércio com a rua que subia em direção ao Recreativo, sendo vizinho da Loja Nunes.

A localização era privilegiada, mas tinha um "senão". Logo no quarteirão precisamente atrás da sua casa, ficava o Clube Recreativo do Cubal. E, como todos certamente se lembram, os domingos à tarde eram sagrados: o Clube ligava os seus altifalantes externos no volume máximo, espalhando música pela vila para atrair as pessoas para as suas famosas matinés dançantes.

Para desespero total do Zeca, o rapaz encarregado de colocar os discos tinha uma preferência muito particular por uma certa música. O problema é que o Zeca detestava essa canção, e o DJ, alheio ao sofrimento do vizinho, colocava o disco vezes sem conta, repetidamente.

Certo domingo, o Zeca perdeu a paciência. Os nervos chegaram ao limite. Saiu de casa decidido, foi até ao Clube, dirigiu-se à chamada Cabine de Som e abordou o rapaz que passava a música:

— Boa tarde, amigo — começou o Zeca, calmamente.

— Boa tarde, seu Zeca — respondeu o rapaz.

— Tem um disco que você coloca muitas vezes...

— É, seu Zeca, acho muito bonito!

— Eu também gosto muito e queria comprar um igual, mas não encontro em lado nenhum. Você não me pode vender esse?

O rapaz hesitou, preocupado com as regras do Clube:

— Não posso não, seu Zeca. Os discos são contados sempre e, se faltar um, vão descontar no meu salário.

— Quanto custa um disco desses? — insistiu o Zeca.

— Deve custar uns 30 escudos.

O Zeca, vendo a oportunidade, fez a sua oferta irrecusável:

— Eu vou-te pagar 50 escudos. Dá para comprar outro qualquer para a contagem dar certo e ainda sobra um trocado para você. Que acha disso?

Depois de uma rápida negociação, e com a promessa do lucro extra, o rapaz acabou por aceitar. O Zeca pagou o valor acertado e recebeu o disco nas mãos.

clicar no video acima
Reconstituição do momento em que o Zeca põe fim à música repetitiva.

No mesmo instante, perante o olhar atónito e incrédulo do rapaz da cabine — tal como podemos imaginar ou ver no vídeo —, o Zeca atirou o disco ao chão e pisoteou-o com vontade, fazendo-o em mil pedaços!

Foi assim, com uma medida drástica mas eficaz, que o Zeca Neves se livrou finalmente da tortura que era ouvir tal música, que lhe punha os nervos à flor da pele.


História verídica contada por Rodrigo (Bibito) Guerra.

💬 Comentários e Memórias

28 novembro 2025

"O ALVES" Uma memória de Bibito (Rodrigo Guerra) partilhada com o CUBAL ANGOLA TERRA AMADA!

 

O ALVES

Uma memória de Bibito (Rodrigo Guerra) 

partilhada com o CUBAL ANGOLA TERRA AMADA!

*Ilustração da aterragem de "O ALVES"*

Era de Benguela, mas visitava frequentemente o Cubal.

Pai do nosso grande amigo Victor Alves de que todos se devem recordar não só por ter sido bancário no Cubal como também pela grande atividade desportiva e colaboração que prestou ao nosso Recreativo que graças ao dinamismo do Victor viu a sua equipe de futebol disputando o campeonato angolano.

Porém, era o Victor ainda criança quando certa noite a população do Cubal viu a sua rotina quebrada pelo barulho de um avião sobrevoando a povoação, melhor, uma avionete como se chamavam os pequenos monomotores de dois lugares.

Toda a gente saiu de casa, às pressas, para apreciar o inédito espetáculo.

O avião deu uma volta larga e retornou. Desta vez, ao passar sobre a povoação, cortou o motor e de lá de cima se ouviu uma voz que gritava:

– Mandem carros para o campo! Mandem carros para o campo!

O povo não acreditava no que ouvia tal era o espanto e, de novo, calando o motor à passagem, o mesmo apelo:

– Mandem carros para o campo!

Saindo do estupor inicial causado pela surpresa, todos começaram a movimentar-se, gritando sugestões, tentando, enfim, colaborar na tentativa unânime de salvar o aflito piloto.

– Lanternas! Vamos levar lanternas! Quem tem lanterna, indagava um.

– Qualquer coisa que dê luz. Archotes. Vamos fazer archotes, aventava outro.

–Vamos depressa. O homem está em dificuldade, incentivava um terceiro

– Toquem o sino da Igreja, alguém gritou.

A esta altura, a pequena povoação habitualmente pacata, era sacudida por um movimento frenético. Carros, que poucos eram naquele tempo, vultos munidos de lanternas de mão, outros portando potentes farolins de caça, ainda outros, pelos lados do bairro dos ferroviários, com lanternas de cabeça, acessório obrigatório do equipamento profissional dos maquinistas, todos surgindo dos mais diversos pontos e movimentando-se rapidamente com o mesmo objetivo.

Ninguém se preocupou em tocar o sino da Igreja como foi sugerido nem foi necessário porque os ferroviários em serviço no depósito de máquinas, impedidos de comparecer, abriram as goelas das locomotivas ali estacionadas soltando seus estridentes apitos. Todos, enfim, tentando colaborar como podiam para ajudar o piloto em dificuldade.

O inusitado movimento, a gritaria, os apitos, provocaram não só desmaios entre senhoras como também um violento ataque de riso a outra cujo nome não me ocorre, mas com a curiosa alcunha de “Pior”. Lembro-me apenas que esta senhora era esposa do condutor Neto do CFB, cunhado, salvo erro, do sobejamente conhecido Sebastião das Neves.

Finalmente, esta pequena multidão caótica e sem liderança, com suas lanternas e faroletes, em harmonia com os carros que já ali se encontravam, conseguiu demarcar um retângulo luminoso que serviu para orientar o piloto sobre a posição do campo de pouso.

Logo o monomotor, agora orientado, aterrissou sobre alto capim e bissapas já que, por falta de demanda, o campo não era capinado havia longos meses.

Todos acorreram curiosos para ver quem ajudaram a salvar e os gritos de alegria foram ainda maiores quando o piloto assomou e reconheceram nele o velho amigo Alves.

- Estava quase sem gasolina. Se vocês atrasassem, eu teria aterrissado mesmo na rua - foi gritando, enquanto desembarcava, referindo-se com certeza à rua principal que era a única iluminada.

Foi um bom motivo para dali irem para o Hotel Central, do João d’Oliveira, mais tarde do Chumbo, do Santos Vilar, do Bocanegra e, finalmente do Rodrigues, único ponto social naquele tempo e ali vararam a noite bebendo e ouvindo o Alves contar a história pormenorizadamente e peripécias outras (verdadeiras ou inventadas) que passara pelos vastos céus da nossa Angola. Afinal, havia que aproveitar, pois ninguém sabia quando é que o Cubal teria ouro caso que alterasse a sua rotina pacata de pequena povoação.



*Ilustração da receção do piloto Alves junto ao Hotel Central*

Rodrigo (Bibito) Guerra

💬 Comentários e Memórias