05 fevereiro 2026

SINTONIA DE SAUDADE: O EMISSOR REGIONAL DO CUBAL E OS NOSSOS DOMINGOS

Se fecharmos os olhos, quase conseguimos ouvir a estática e, logo a seguir, a voz clara que entrava pelas nossas casas: "Aqui fala o Emissor Regional do Cubal". Situado na Rua Campo de Aviação, este edifício era muito mais do que betão; era um farol de cultura e um elo de ligação entre todos nós.

 Emissora Oficial de Angola - Sede do Emissor Regional do Cubal

Quem não sente um aperto no peito ao recordar as tardes domingueiras? Era o momento sagrado da semana em que nos habituámos a ouvir os famosos "Discos Pedidos". Mais do que música, aquele programa era uma ponte de afetos: dedicatórias a namoradas, mensagens para familiares distantes e os parabéns aos aniversariantes. Aquele rádio, sintonizado na frequência certa, era a banda sonora dos nossos almoços de família e das tardes de descanso.

Contudo, a história tem capítulos mais duros. A imagem que hoje destacamos, captada e partilhada pelo nosso amigo Henrique Faria em 24 de Julho de 2008, mostra-nos a realidade nua e crua do que restava dessas instalações décadas depois. É um registo visual impactante, que documenta o estado de abandono a que chegou aquele que foi um orgulho da nossa terra, onde apenas o silêncio substituiu a música.

Registo de 24 de Julho de 2008, por Henrique Faria

Apesar das paredes desgastadas que a fotografia de 2008 nos mostra, as memórias permanecem vivas. Não podemos esquecer que foi nestes corredores que grandes profissionais deram os primeiros passos. É o caso do nosso ilustre cubalense Jaime Marques de Almeida, que aqui iniciou a sua carreira profissional, levando a experiência e a "escola" adquirida no Emissor Regional para voos mais altos.

Olhar para estas duas realidades — a alegria dos "Discos Pedidos" e a ruína de 2008 — serve para avivar a nossa memória coletiva. Não para nos prendermos à tristeza, mas para celebrarmos a importância do que ali foi construído.


Para viajar no tempo através do nosso arquivo:

E o caro leitor? Chegou a dedicar alguma música ou a receber alguma mensagem através do nosso Emissor? Partilhe connosco as suas recordações desses domingos e não apenas, mas histórias que nos relembrem os anos de ouro da rádio cubalense.

-ruca


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02 fevereiro 2026

O palco da infância: Elsa Pais e Álvaro Ferreira numa récita dos anos 50

Elsa Pais e Álvaro Ferreira. 
Foto: Zé Carlos Ferreira

Recuamos hoje aos dourados anos 50, a um tempo em que o Cubal também se vestia a rigor para a cultura e para a festa. Esta fotografia, uma relíquia cedida pelo Zé Carlos Ferreira, transporta-nos para o cenário de uma récita infantil, onde duas crianças posam com a seriedade solene que o momento exigia.

Eles são a Elsa Pais e o Álvaro Ferreira. Ela, num vestido de folhos impecável, com o cabelo arranjado ao pormenor; ele, aprumado com o seu lenço ao pescoço, talvez encarnando um camponês ou uma figura folclórica numa peça de teatro escolar.

A imagem, contudo, traz consigo um misto de beleza e de saudade profunda. Nos comentários que acompanham esta memória, o Zé Carlos Ferreira recorda com emoção o seu "querido e saudoso irmão Álvaro", evocando também a beleza da Elsa, uma "miúda lindíssima" que marcou a sua geração.

A caixa de comentários acabou por se tornar, também ela, um lugar de homenagem e despedida. A Fernanda Valadas Vieira trouxe a notícia que o tempo, implacável, se encarregou de escrever: a Elsa, tal como a restante família Pais (incluindo o Alexandrino, a Lila e o Zeca), já partiu há muitos anos. Foi um momento de revelação dolorosa para a Tucha Garcia, que finalmente compreendeu o silêncio das cartas que deixaram de ter resposta: "Paz à tua alma, Elsa".

Esta fotografia deixa de ser apenas um registo de uma festa escolar para se tornar um monumento à memória deles. Ficam os fatos de gala, o brilho nos olhos e a certeza de que, no álbum do Cubal, eles serão sempre aquelas crianças prontas para entrar em palco, sob os aplausos de uma terra que não os esquece.

-ruca

Créditos:
Foto cedida por: Zé Carlos Ferreira
Informação histórica: Fernanda Valadas Vieira

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01 fevereiro 2026

Parece que foi ontem: A juventude do Cubal num retrato eterno

 


Jovens do Cubal

Há frases que resumem tudo, e o comentário da Ana Bela Faustino nesta fotografia diz o essencial: "Parece que foi ontem". Ao olharmos para este grupo de jovens do Cubal, congelado no tempo pela objetiva de uma máquina fotográfica, é impossível não sentir a energia vibrante de uma geração que cresceu entre a liberdade da terra e a força das amizades que duram uma vida inteira.

A imagem, mais uma partilha preciosa da Fernanda Valadas, funciona como um puzzle de afetos. Nos comentários, os amigos reuniram-se para devolver a identidade a cada rosto, num exercício coletivo de memória que é tão bonito quanto a própria foto.

Lá estão eles, alinhados com a moda da época e o sorriso pronto. De pé, reconhecemos figuras como o João Proença e a Milena, a Mibel (que a Fernanda fez questão de retificar, para que a memória não falhe), a Celeste, a Lília, a Betinha e a própria Ana Bela Faustino.

Em baixo, com a descontração típica de quem se sente em casa, o grupo completa-se com o Álvaro, o Pires, o Sampaio, o João Silva e o Nando Vaz. A pose do rapaz em primeiro plano, de braços abertos, parece querer abraçar o momento, segurando aquela alegria para que não fugisse.

O João Mário Campanha resume o sentimento geral com uma única palavra: "Saudades". E é verdade. A saudade não é apenas das pessoas, mas daquele Cubal onde estes laços se formaram. Onde cada festa, cada encontro e cada fotografia eram vividos com uma intensidade que hoje, à distância de décadas, ainda nos aquece o coração.

Que esta imagem sirva para recordar não apenas os nomes, mas o espírito de uma juventude que o tempo não conseguiu apagar.

-ruca

Créditos:
Foto cedida por: Fernanda Valadas Vieira
Colaboração na identificação: Ana Bela Faustino, António Lopes Mendes


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As ondas do rádio e as árvores de macarrão: O inesquecível Alexandrino Pais


 

Alexandrino Pais.

Há figuras que, mais do que habitar um lugar, tornam-se parte da sua própria alma. No Cubal, terra de gente com memória forte, o Alexandrino Pais foi um desses rostos que dispensam apresentações. A fotografia, gentilmente cedida pela Nanda Valadas, devolve-nos um desses instantes perfeitos: o Alexandrino, de camisa aberta e ar descontraído, segurando aquele rádio portátil como quem segura o mundo nas mãos.

Era uma "figura caricata", como dizem com carinho os amigos, mas acima de tudo era um mestre do improviso e da boa disposição. O rádio que exibe na imagem não era apenas um aparelho; era talvez a extensão da sua própria vontade de comunicar, de trazer as "notícias frescas" que a Tucha Garcia recorda com tanta saudade. Ele tinha o dom de arrancar gargalhadas, transformando o quotidiano numa comédia viva.

Mas o que seria do Cubal sem as suas lendas urbanas (ou rurais)? A Maria Helena Carvalho recordou, e bem, a faceta mais fantasiosa do Alexandrino: a célebre plantação de macarrão. Com a maior seriedade do mundo, era capaz de convencer os mais incautos de que possuía árvores de macarrão com cinco metros de altura. Era preciso ter arte para contar estas histórias sem se desmanchar a rir, mantendo a plateia suspensa na dúvida entre a verdade e a galhofa.

O Celestino Alves Geral, seu "sócio" nestas andanças, lembra-se bem dessa postura. Quando apareciam forasteiros ou pessoas que não conheciam as manhas da terra, o Alexandrino não gaguejava. Vestia a pele de grande fazendeiro e discorria sobre os assuntos da lavoura imaginária com uma convicção tal que a ficção se tornava, por momentos, realidade.

Esta imagem a preto e branco é um bilhete de regresso a esse tempo. Um tempo em que a rádio tocava as músicas da moda, em que se conversava nas esplanadas e em que figuras como o Alexandrino Pais davam cor aos dias do Cubal, provando que a vida se deve levar com leveza e, sempre que possível, com um sorriso nos lábios.

-ruca

Créditos:
Foto cedida por: Nanda Valadas


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