Quando o Cubal ainda levantava pó nas avenidas
Esta fotografia leva-nos para o Cubal dos finais dos anos 60, talvez já a tocar os primeiros anos da década de 70. Era um tempo em que a luz parecia ter outra densidade, uma claridade muito própria, intensa e limpa, que fazia vibrar as cores e dava à vila um brilho difícil de esquecer.
Quem percorresse uma das principais avenidas do Cubal encontrava um cenário de transição, desses que hoje ganham ainda mais valor quando os revemos à distância. De um lado, o vulto moderno de edifícios que iam marcando o crescimento da vila. Do outro, a persistência da terra batida, ainda sem o tapete negro do alcatrão, cobrindo de um tom ferrugem as bermas da estrada, as jantes dos carros e, tantas vezes, os nossos próprios sapatos.
À esquerda, a estação da Texaco, com a sua estrela vermelha erguida bem alto, era muito mais do que um simples posto de abastecimento. Era uma referência do Cubal, um marco geográfico, um ponto de passagem e também de encontro. Ali, o cheiro da gasolina misturava-se com o odor seco da poeira levantada pelo vento e pelo movimento dos veículos.
Mais ao fundo, vê-se ainda a indicação da Fina, sinal de um Cubal vivo, em crescimento, com comércio, circulação e sinais bem visíveis de modernidade. Mas há nesta imagem algo que vai para além dos edifícios e das marcas. Há a própria atmosfera da época.
A estrada, ainda não alcatroada, era feita de chão firme, pisado e repisado por mil passagens. O som dos pneus não era o ruído seco do asfalto, mas antes um sussurro granulado e constante, tão familiar para quem ali viveu. E ao longo da avenida, as árvores e as acácias-rubras, com o seu vermelho vivo, pontuavam a paisagem e pareciam disputar protagonismo com o azul largo do céu.
Eram tempos de uma beleza simples. A poeira nos sapatos não era sujidade: era sinal de pertença.
Ao olharmos para esta fotografia, quase conseguimos sentir o calor da tarde. Quase ouvimos, ao longe, o motor de um Land Rover, de uma carrinha de caixa aberta ou de outro veículo que surgia levantando uma nuvem de pó. E, no entanto, por detrás dessa imagem de progresso e movimento, havia uma paz muito própria, uma harmonia serena entre o desenvolvimento que avançava e a terra que continuava a moldar o quotidiano.
O edifício de linhas direitas, ao fundo, falava de um futuro que chegava a passos largos. Mas para quem ali cresceu, o essencial estava talvez noutra parte: naquela familiaridade das avenidas largas, naquele ritmo sem pressa, naquela convivência entre o moderno e o simples, entre a construção do amanhã e a permanência da terra de sempre.
Eram tempos de uma beleza despretensiosa. Tempos em que a poeira nos sapatos não era sujidade. Era a marca natural de quem tinha caminhado pela sua terra, de quem vivia o Cubal por dentro e por fora, na luz, na rua, no comércio, no movimento e na memória.
Esta não é apenas uma fotografia de uma avenida. É um retrato de um tempo. Um tempo em que o Cubal crescia, sonhava e avançava, sem perder a sua alma. E talvez seja por isso que imagens como esta ainda hoje nos tocam tanto: porque nelas reconhecemos não apenas um lugar, mas uma forma de viver.
Fica, como sempre, o convite a quem souber acrescentar memória a esta imagem: identificar melhor o local, corrigir algum detalhe, recordar histórias, nomes ou episódios ligados a esta zona da vila. Cada contributo ajuda a reconstituir, com verdade e carinho, a história do nosso Cubal.
Porque o pó das estradas assentou há muito.
Mas a memória de quem por elas passou continua viva.
Ruca
Cubal Angola Terra Amada!
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