09 maio 2026

O Simão, uma banana e uma infância no Cubal

 


Memórias do Cubal

O Simão, uma banana e uma infância no Cubal

(Ruca )

Fotografia gentilmente captada pelo saudoso Augusto Pessoa, provavelmente em 1967/68, no Cubal.

Há fotografias que nos chegam como pequenas cápsulas do tempo. Esta é uma delas.

Foi gentilmente captada pelo saudoso Augusto Pessoa , marido da Maria Socorro e pai do meu amigo de infância Sergito (Ivo Sérgio), provavelmente em 1967 ou 1968, no quintal de uma casa que os meus pais arrendaram ao casal Augusto e Socorro, no Cubal.

Esta mesma casa e outras memórias do Cubal de ontem podem ser revisitadas numa publicação antiga do blogue: “Cubal de ontem, por Augusto Pessoa” .

Na imagem estou eu, ainda menino, diante de um desafio que, naquele tempo, me parecia enorme: dar “pessoalmente” uma banana ao Simão, o macaco que havia lá em casa.

Hoje, olhando para esta fotografia com os olhos de agora, é impossível não fazer uma ressalva. A nossa sensibilidade mudou, felizmente. Sabemos hoje que animais como este não devem viver como animais de estimação, presos a quintais ou afastados do seu ambiente natural.

O que então era visto com naturalidade, hoje causa-nos desconforto, e ainda bem. A evolução também se mede por essa capacidade de olharmos para trás com ternura, mas sem deixarmos de aprender.

Esta fotografia deve, por isso, ser vista como aquilo que é: um documento de época. Um retrato de um tempo, de uma infância e de uma forma de viver que já não existe.

Naquele Cubal dos anos 60, não havia smartphones, não havia televisão ao alcance de todos, não havia este mundo de estímulos, ecrãs e ofertas permanentes que hoje rodeiam os mais novos. Havia quintais, terra, árvores, pequenos perigos, grandes aventuras e uma liberdade que se vivia com o corpo inteiro.

E havia também desafios. Como este.

Recordo-me de que o Simão não estava propriamente interessado em cerimónias. Queria a banana, e queria-a depressa. Eu, cheio de coragem e alguma inconsciência própria da idade, lá me aproximei.

O resultado foi o esperado: arranhões, susto, risos e, provavelmente, mais uma generosa dose de mercurocromo e pensos rápidos. Naqueles tempos, éramos todos bons clientes desses pequenos socorros domésticos.

Imagino o Augusto Pessoa, com a sua máquina fotográfica, talvez uma Agfa, a tentar encontrar o melhor enquadramento enquanto tudo acontecia depressa demais. E ainda bem que o fez. Porque, sem ele, este pequeno episódio ter-se-ia talvez perdido na poeira da memória.

Hoje, ao olhar para esta imagem, não vejo apenas um menino e um macaco. Vejo uma infância vivida ao ar livre. Vejo o Cubal da minha meninice. Vejo a terra nos pés, os arranhões nos joelhos, a coragem ingénua, os amigos por perto, os adultos atentos e aquela felicidade simples que não precisava de grande explicação.

É verdade que nem tudo nesse tempo era perfeito. Nenhum tempo o é. Mas havia momentos em que quase todos parecíamos felizes. Ou, pelo menos, sabíamos ser felizes com muito pouco.

E talvez seja isso que esta fotografia me trouxe hoje: a lembrança de um Cubal onde se vivia mais devagar, onde cada pequeno acontecimento podia transformar-se numa história, e onde até uma banana dada ao Simão ficava guardada para sempre no coração de um miúdo.

Hoje deu-me para isto: mais uma nostalgia cubalense.

Com saudade, respeito pela memória e também com a consciência do que aprendemos entretanto.

Ruca

Nota para os leitores: estas memórias são partilhadas com o carinho próprio de quem recorda uma infância vivida no Cubal. Se algum leitor reconhecer pessoas, lugares ou detalhes que possam ajudar a completar esta história, terei muito gosto em receber o seu contributo.

Cubal Angola Terra Amada!
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07 maio 2026

O Cubal e a arte de guardar afetos

 O Cubal e a arte de guardar afetos 

Há fotografias que valem mais do que mil palavras. E depois há aquelas que conseguem guardar dentro delas o ambiente inteiro de uma época. Esta é, sem dúvida, uma dessas imagens.

Filomena Maria com o seu vestido de papel

No Cubal dos anos 60, ou talvez já dos primeiros anos 70, vivia-se com uma intensidade muito própria. Havia bailes, festas, concursos, noites de convívio e uma criatividade genuína que hoje quase parece impossível imaginar. Tudo era feito com entusiasmo, dedicação e aquele espírito comunitário que transformava qualquer iniciativa num acontecimento memorável.

Nesta fotografia vemos a jovem Filomena Maria, elegantemente apresentada num vestido artesanal feito exclusivamente com recortes da revista Notícia, uma publicação incontornável na época. O resultado, para aqueles anos, era extraordinário: criatividade, paciência e imaginação transformadas numa verdadeira peça de espetáculo.

O cenário noturno, o cuidado do penteado, o ramo decorativo e a pose tímida, mas orgulhosa, transportam-nos imediatamente para os salões do antigo Clube Ferrovia ou, talvez, do Clube Recreativo do Cubal. Quem sabe se algum dos nossos leitores conseguirá identificar com precisão o evento, o ano ou até outras pessoas presentes nessa noite?

“Com amizade ofereço esta fotografia para que recorde sempre a sua amiguinha Filomena Maria”

E é precisamente aqui que a imagem ganha ainda mais alma. Esta fotografia foi oferecida à minha querida mãe, Júlia, e guardada ao longo de décadas, como tantas memórias que atravessaram continentes, mudanças de vida e o próprio tempo.

Tenho a sensação, embora sem total certeza, de que a minha mãe poderá ter ajudado a Filomena a preparar-se para essa noite, talvez no penteado ou nos últimos retoques de beleza. No Cubal, as amizades construíam-se também nestes pequenos gestos de proximidade e entreajuda.

O mais bonito nestas imagens antigas não é apenas aquilo que mostram; é aquilo que nos fazem sentir. Olhar para esta fotografia é recordar um Cubal vivo, elegante, criativo e profundamente humano. Um lugar onde a amizade tinha valor, onde as pessoas se conheciam pelo nome e onde uma simples fotografia oferecida “com amizade” podia sobreviver mais de cinquenta anos e continuar hoje a emocionar-nos.

Talvez alguém se lembre deste concurso, desta noite especial ou destes vestidos feitos a partir da revista Notícia, que durante tantos anos entrou nas casas de tantos de nós. E talvez seja precisamente isso que torna o nosso blogue tão importante: impedir que estas pequenas grandes memórias desapareçam em silêncio.

Ruca

Cubal Angola Terra Amada!

cubal-angola.blogspot.com

Se reconhecer esta imagem, o evento ou as pessoas nela retratadas, partilhe connosco nos comentários. A memória do Cubal continua a construir-se entre todos.

Atualização: A memória completa-se

Após a partilha desta crónica, a Mena Costa trouxe-nos as peças que faltavam para este puzzle de afetos. Confirmou-se o cenário: este momento mágico aconteceu no Clube Recreativo do Cubal, por ocasião de um Carnaval.

"Foi a tua mãe que me penteou, sim. Fiquei comovida com a descrição da foto. Até a ser gratas e gentis nos ensinavam a ser, as mães, pois possivelmente foi uma forma de agradecer à tua mãe ter posto a sua princesa tão bonita." — Mena Costa

Esta confirmação transforma a suposição em certeza histórica e emocional. Fica o registo daquela que é a maior verdade destas imagens: as nossas mães eram as verdadeiras artistas. Com mãos de fada e uma generosidade sem limites, não só criavam beleza, como nos ensinavam o valor da gratidão e da amizade — valores que, como vemos nesta dedicatória, resistiram a mais de meio século.

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05 maio 2026

1 de Dezembro de 1972 — “Os Terríveis” do Cubal: onde a amizade não escolhia cores

1 de Dezembro de 1972 — Cubal

“Os Terríveis” do Cubal: onde a amizade não escolhia cores

“Os Terríveis” — equipa de desporto escolar do Cubal, 1 de Dezembro de 1972 .

Na fila de cima, da esquerda para a direita:
Olga, treinadora, Emanuel, eu (Ruca)  e Henriques.

Em baixo:
António Pinto, Fernando — ou será Victor? Fica o apelo aos amigos para ajudarem a completar esta memória —, Luís Carlos Contreiras Campos, o nosso conhecido Belito Campos e Luciano.


Esta é, sem dúvida, uma das imagens mais poderosas e significativas que hoje posso partilhar. Não encerra apenas a memória de uma vitória desportiva. Guarda, acima de tudo, a essência de uma Angola que vivíamos com a naturalidade e a pureza de quem ainda não conhecia barreiras.

Há fotografias que não envelhecem. Ficam connosco, guardadas no arquivo do coração, como um retrato fiel de quem fomos — e, de certa forma, de quem ainda somos.

Esta, datada de 1 de Dezembro de 1972, é uma das minhas preferidas.

Olho para ela e vejo muito mais do que uma equipa de desporto escolar. Vejo um grupo de miúdos, unidos por algo simples e verdadeiro. Éramos “Os Terríveis”.

Uma equipa vencedora, mas sobretudo uma equipa de amigos.

Sob o olhar atento e dedicado da nossa treinadora, a Prof.ª Olga Santos — a nossa querida “Olguinha” —, formávamos um bloco coeso. Mais do que treinar, ela ensinava-nos valores: disciplina, respeito e espírito de equipa.

Na fila de cima, da esquerda para a direita:
Olga, treinadora, Emanuel, eu (Ruca)  e Henriques.

Em baixo:
António Pinto, Fernando — ou será Victor? Fica o apelo aos amigos para ajudarem a completar esta memória —, Luís Carlos Contreiras Campos, o nosso conhecido Belito Campos e Luciano.

Era desporto escolar, sim. Mas era muito mais do que isso.

Esta imagem simboliza o que de melhor vivíamos antes de 1975. Olhávamos uns para os outros de frente, sem distinções. Nos nossos corações de crianças, nada nos separava. Não havia rótulos. Não havia diferenças que contassem. Éramos apenas amigos.

E isso via-se também fora do campo.

Lembro-me bem de tantos destes dias terminarem em nossa casa. A minha mãe, Júlia, recebia todos com a mesma naturalidade. À volta da mesa, não havia cor de pele. Havia pão partilhado, risos soltos e aquela algazarra boa da infância. Havia amizade — simples, inteira, sem esforço.


A medalha do torneio: Cubal, 1 de Dezembro de 1972.

O esforço desse dia foi recompensado com a medalha que guardo até hoje, gravada com o nome da nossa terra e a data que nos encheu de orgulho: Cubal, 1 de Dezembro de 1972.

Mas não ficámos por aí. A nossa união levou-nos também à conquista de uma medalha de campeões na corrida de estafetas. Cada um de nós fazia a sua parte — e juntos éramos mais fortes.

Mas, olhando hoje para esta imagem, percebo que a maior vitória não está no metal.

Está no que vivemos.

Recordar “Os Terríveis” é mergulhar numa nostalgia saudável, mas é também um exercício de esperança. Mostra-nos que é possível viver com naturalidade, com respeito, com proximidade verdadeira. Que a diversidade não nos afastava — aproximava-nos.

O Cubal desses anos era feito disso.
De encontros. De mistura. De vida genuína.

E talvez seja isso que mais importa guardar:
a certeza de que já soubemos viver assim… e que essa memória ainda nos pode guiar.

Porque, acima de tudo, fomos — e seremos sempre — colegas de infância e amigos para a vida.


Ruca
Cubal Angola Terra Amada!
https://cubal-angola.blogspot.com

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Um domingo no campo da aviação do Cubal


 

Um domingo no campo da aviação…

onde o céu começava ali ao lado


O nosso Mini Moke, num domingo de passeio pelo Cubal.

Há memórias que o tempo não apaga. Ficam guardadas em tons de sépia, no recorte nítido de fotografias que contam, em silêncio, a história de uma vida cheia.

Estas levam-nos ao final da década de 60, talvez já à porta dos anos 70, num Cubal que fervilhava de cor e de trabalho, mas que sabia guardar o domingo para a pacatez dos afetos.

O ritual começava quase sempre da mesma forma: o motor do nosso fiel Mini Moke a despertar. Um carro simples, aberto ao vento e à paisagem, perfeito para aqueles dias sem pressas. Ao volante, a minha mãe, Júlia, recentemente encartada, com aquele misto de concentração e orgulho de quem começava a conquistar o volante… e mais um pedaço do mundo.

A caminho do campo de aviação, num tempo em que o domingo parecia mais comprido.

É fácil imaginar que, nesse trajecto, o rádio nos fizesse companhia. O Emissor Regional do Cubal, sempre presente, e talvez a rubrica dos discos pedidos a encher o ar. E, quem sabe, a voz de Nelson Ned a cantar baixinho:

“O que é que você vai fazer no domingo à tarde… passear por aí…”

Como se aquela canção tivesse sido feita para nós.

A bordo, a alegria era simples e verdadeira. O meu pai, Raul, presença firme e tranquila, pilar de todas as jornadas. Eu, ainda miúdo, entre a curiosidade e o encanto de tudo aquilo. E a senhora Gina, chegada há pouco tempo de Portugal Continental para ajudar a minha mãe, a descobrir connosco aquela terra que também começava a ser sua.

Talvez o meu tio Joaquim estivesse por perto, mesmo não tendo ficado preso no instante das fotografias. Porque nestes dias, quase sempre, ninguém ficava de fora.





O campo de aviação do Cubal e a máquina voadora que alimentava a nossa curiosidade.

O destino era o mesmo de tantas vezes: o campo de aviação do Cubal.

Durante a semana, ouvíamos ao longe o ronco das “máquinas voadoras” que cruzavam os céus para desinfestar as plantações, sobretudo o algodão, o verdadeiro ouro branco da região. Mas ao domingo, a máquina repousava. E isso permitia-nos chegar perto, olhar sem pressa, quase tocar naquele sonho de voar.

Ali, o mundo mudava de escala.

A terra batida, o cheiro seco do mato, o silêncio cortado apenas pelo vento ou por uma conversa distante. E depois, o avião. Imenso. Quase irreal. Um objeto que parecia deslocado daquela paisagem, mas que fazia parte dela como tudo o resto.

O avião em repouso, depois de durante a semana cruzar os céus do Cubal.

Aproximávamo-nos devagar, com respeito quase instintivo. Havia sempre aquele momento de pausa, de olhar demorado, de perguntas que ficavam no ar. Como voa? Para onde vai? Como consegue desaparecer no horizonte?

E, no meio de tudo isso, estava o essencial: estarmos juntos.

As fotografias mostram gestos simples, olhares curiosos, pequenos instantes. Mas por trás delas está um tempo em que a vida se fazia de coisas aparentemente pequenas, mas profundamente significativas.

O Cubal era, de facto, vida e cor. 

Mesmo quando hoje o vemos em tons de sépia.

Um Cubal eterno, entre o pó da estrada, o brilho do avião e a memória dos afetos.

Ficam estes registos de um Cubal eterno, onde o pó da estrada, o som de um rádio ao longe e o brilho do alumínio de um avião se misturam numa memória que não se apaga.

E talvez seja isso que mais importa:
a certeza de que, num domingo qualquer, entre um Mini Moke, um avião pousado na terra e uma canção no ar… éramos felizes sem precisar de saber.


Ruca
Cubal Angola Terra Amada!
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