05 maio 2026

1 de Dezembro de 1972 — “Os Terríveis” do Cubal: onde a amizade não escolhia cores

1 de Dezembro de 1972 — Cubal

“Os Terríveis” do Cubal: onde a amizade não escolhia cores

“Os Terríveis” — equipa de desporto escolar do Cubal, 1 de Dezembro de 1972 .

Na fila de cima, da esquerda para a direita:
Olga, treinadora, Emanuel, eu (Ruca)  e Henriques.

Em baixo:
António Pinto, Fernando — ou será Victor? Fica o apelo aos amigos para ajudarem a completar esta memória —, Luís Carlos Contreiras Campos, o nosso conhecido Belito Campos e Luciano.


Esta é, sem dúvida, uma das imagens mais poderosas e significativas que hoje posso partilhar. Não encerra apenas a memória de uma vitória desportiva. Guarda, acima de tudo, a essência de uma Angola que vivíamos com a naturalidade e a pureza de quem ainda não conhecia barreiras.

Há fotografias que não envelhecem. Ficam connosco, guardadas no arquivo do coração, como um retrato fiel de quem fomos — e, de certa forma, de quem ainda somos.

Esta, datada de 1 de Dezembro de 1972, é uma das minhas preferidas.

Olho para ela e vejo muito mais do que uma equipa de desporto escolar. Vejo um grupo de miúdos, unidos por algo simples e verdadeiro. Éramos “Os Terríveis”.

Uma equipa vencedora, mas sobretudo uma equipa de amigos.

Sob o olhar atento e dedicado da nossa treinadora, a Prof.ª Olga Santos — a nossa querida “Olguinha” —, formávamos um bloco coeso. Mais do que treinar, ela ensinava-nos valores: disciplina, respeito e espírito de equipa.

Na fila de cima, da esquerda para a direita:
Olga, treinadora, Emanuel, eu (Ruca)  e Henriques.

Em baixo:
António Pinto, Fernando — ou será Victor? Fica o apelo aos amigos para ajudarem a completar esta memória —, Luís Carlos Contreiras Campos, o nosso conhecido Belito Campos e Luciano.

Era desporto escolar, sim. Mas era muito mais do que isso.

Esta imagem simboliza o que de melhor vivíamos antes de 1975. Olhávamos uns para os outros de frente, sem distinções. Nos nossos corações de crianças, nada nos separava. Não havia rótulos. Não havia diferenças que contassem. Éramos apenas amigos.

E isso via-se também fora do campo.

Lembro-me bem de tantos destes dias terminarem em nossa casa. A minha mãe, Júlia, recebia todos com a mesma naturalidade. À volta da mesa, não havia cor de pele. Havia pão partilhado, risos soltos e aquela algazarra boa da infância. Havia amizade — simples, inteira, sem esforço.


A medalha do torneio: Cubal, 1 de Dezembro de 1972.

O esforço desse dia foi recompensado com a medalha que guardo até hoje, gravada com o nome da nossa terra e a data que nos encheu de orgulho: Cubal, 1 de Dezembro de 1972.

Mas não ficámos por aí. A nossa união levou-nos também à conquista de uma medalha de campeões na corrida de estafetas. Cada um de nós fazia a sua parte — e juntos éramos mais fortes.

Mas, olhando hoje para esta imagem, percebo que a maior vitória não está no metal.

Está no que vivemos.

Recordar “Os Terríveis” é mergulhar numa nostalgia saudável, mas é também um exercício de esperança. Mostra-nos que é possível viver com naturalidade, com respeito, com proximidade verdadeira. Que a diversidade não nos afastava — aproximava-nos.

O Cubal desses anos era feito disso.
De encontros. De mistura. De vida genuína.

E talvez seja isso que mais importa guardar:
a certeza de que já soubemos viver assim… e que essa memória ainda nos pode guiar.

Porque, acima de tudo, fomos — e seremos sempre — colegas de infância e amigos para a vida.


Ruca
Cubal Angola Terra Amada!
https://cubal-angola.blogspot.com

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Um domingo no campo da aviação do Cubal


 

Um domingo no campo da aviação…

onde o céu começava ali ao lado


O nosso Mini Moke, num domingo de passeio pelo Cubal.

Há memórias que o tempo não apaga. Ficam guardadas em tons de sépia, no recorte nítido de fotografias que contam, em silêncio, a história de uma vida cheia.

Estas levam-nos ao final da década de 60, talvez já à porta dos anos 70, num Cubal que fervilhava de cor e de trabalho, mas que sabia guardar o domingo para a pacatez dos afetos.

O ritual começava quase sempre da mesma forma: o motor do nosso fiel Mini Moke a despertar. Um carro simples, aberto ao vento e à paisagem, perfeito para aqueles dias sem pressas. Ao volante, a minha mãe, Júlia, recentemente encartada, com aquele misto de concentração e orgulho de quem começava a conquistar o volante… e mais um pedaço do mundo.

A caminho do campo de aviação, num tempo em que o domingo parecia mais comprido.

É fácil imaginar que, nesse trajecto, o rádio nos fizesse companhia. O Emissor Regional do Cubal, sempre presente, e talvez a rubrica dos discos pedidos a encher o ar. E, quem sabe, a voz de Nelson Ned a cantar baixinho:

“O que é que você vai fazer no domingo à tarde… passear por aí…”

Como se aquela canção tivesse sido feita para nós.

A bordo, a alegria era simples e verdadeira. O meu pai, Raul, presença firme e tranquila, pilar de todas as jornadas. Eu, ainda miúdo, entre a curiosidade e o encanto de tudo aquilo. E a senhora Gina, chegada há pouco tempo de Portugal Continental para ajudar a minha mãe, a descobrir connosco aquela terra que também começava a ser sua.

Talvez o meu tio Joaquim estivesse por perto, mesmo não tendo ficado preso no instante das fotografias. Porque nestes dias, quase sempre, ninguém ficava de fora.





O campo de aviação do Cubal e a máquina voadora que alimentava a nossa curiosidade.

O destino era o mesmo de tantas vezes: o campo de aviação do Cubal.

Durante a semana, ouvíamos ao longe o ronco das “máquinas voadoras” que cruzavam os céus para desinfestar as plantações, sobretudo o algodão, o verdadeiro ouro branco da região. Mas ao domingo, a máquina repousava. E isso permitia-nos chegar perto, olhar sem pressa, quase tocar naquele sonho de voar.

Ali, o mundo mudava de escala.

A terra batida, o cheiro seco do mato, o silêncio cortado apenas pelo vento ou por uma conversa distante. E depois, o avião. Imenso. Quase irreal. Um objeto que parecia deslocado daquela paisagem, mas que fazia parte dela como tudo o resto.

O avião em repouso, depois de durante a semana cruzar os céus do Cubal.

Aproximávamo-nos devagar, com respeito quase instintivo. Havia sempre aquele momento de pausa, de olhar demorado, de perguntas que ficavam no ar. Como voa? Para onde vai? Como consegue desaparecer no horizonte?

E, no meio de tudo isso, estava o essencial: estarmos juntos.

As fotografias mostram gestos simples, olhares curiosos, pequenos instantes. Mas por trás delas está um tempo em que a vida se fazia de coisas aparentemente pequenas, mas profundamente significativas.

O Cubal era, de facto, vida e cor. 

Mesmo quando hoje o vemos em tons de sépia.

Um Cubal eterno, entre o pó da estrada, o brilho do avião e a memória dos afetos.

Ficam estes registos de um Cubal eterno, onde o pó da estrada, o som de um rádio ao longe e o brilho do alumínio de um avião se misturam numa memória que não se apaga.

E talvez seja isso que mais importa:
a certeza de que, num domingo qualquer, entre um Mini Moke, um avião pousado na terra e uma canção no ar… éramos felizes sem precisar de saber.


Ruca
Cubal Angola Terra Amada!
https://cubal-angola.blogspot.com

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