O Simão, uma banana e uma infância no Cubal
(Ruca )
Fotografia gentilmente captada pelo saudoso Augusto Pessoa, provavelmente em 1967/68, no Cubal.
Há fotografias que nos chegam como pequenas cápsulas do tempo. Esta é uma delas.
Foi gentilmente captada pelo saudoso Augusto Pessoa , marido da Maria Socorro e pai do meu amigo de infância Sergito (Ivo Sérgio), provavelmente em 1967 ou 1968, no quintal de uma casa que os meus pais arrendaram ao casal Augusto e Socorro, no Cubal.
Esta mesma casa e outras memórias do Cubal de ontem podem ser revisitadas numa publicação antiga do blogue: “Cubal de ontem, por Augusto Pessoa” .
Na imagem estou eu, ainda menino, diante de um desafio que, naquele tempo, me parecia enorme: dar “pessoalmente” uma banana ao Simão, o macaco que havia lá em casa.
Hoje, olhando para esta fotografia com os olhos de agora, é impossível não fazer uma ressalva. A nossa sensibilidade mudou, felizmente. Sabemos hoje que animais como este não devem viver como animais de estimação, presos a quintais ou afastados do seu ambiente natural.
O que então era visto com naturalidade, hoje causa-nos desconforto, e ainda bem. A evolução também se mede por essa capacidade de olharmos para trás com ternura, mas sem deixarmos de aprender.
Esta fotografia deve, por isso, ser vista como aquilo que é: um documento de época. Um retrato de um tempo, de uma infância e de uma forma de viver que já não existe.
Naquele Cubal dos anos 60, não havia smartphones, não havia televisão ao alcance de todos, não havia este mundo de estímulos, ecrãs e ofertas permanentes que hoje rodeiam os mais novos. Havia quintais, terra, árvores, pequenos perigos, grandes aventuras e uma liberdade que se vivia com o corpo inteiro.
E havia também desafios. Como este.
Recordo-me de que o Simão não estava propriamente interessado em cerimónias. Queria a banana, e queria-a depressa. Eu, cheio de coragem e alguma inconsciência própria da idade, lá me aproximei.
O resultado foi o esperado: arranhões, susto, risos e, provavelmente, mais uma generosa dose de mercurocromo e pensos rápidos. Naqueles tempos, éramos todos bons clientes desses pequenos socorros domésticos.
Imagino o Augusto Pessoa, com a sua máquina fotográfica, talvez uma Agfa, a tentar encontrar o melhor enquadramento enquanto tudo acontecia depressa demais. E ainda bem que o fez. Porque, sem ele, este pequeno episódio ter-se-ia talvez perdido na poeira da memória.
Hoje, ao olhar para esta imagem, não vejo apenas um menino e um macaco. Vejo uma infância vivida ao ar livre. Vejo o Cubal da minha meninice. Vejo a terra nos pés, os arranhões nos joelhos, a coragem ingénua, os amigos por perto, os adultos atentos e aquela felicidade simples que não precisava de grande explicação.
É verdade que nem tudo nesse tempo era perfeito. Nenhum tempo o é. Mas havia momentos em que quase todos parecíamos felizes. Ou, pelo menos, sabíamos ser felizes com muito pouco.
E talvez seja isso que esta fotografia me trouxe hoje: a lembrança de um Cubal onde se vivia mais devagar, onde cada pequeno acontecimento podia transformar-se numa história, e onde até uma banana dada ao Simão ficava guardada para sempre no coração de um miúdo.
Hoje deu-me para isto: mais uma nostalgia cubalense.
Com saudade, respeito pela memória e também com a consciência do que aprendemos entretanto.
Ruca
Nota para os leitores: estas memórias são partilhadas com o carinho próprio de quem recorda uma infância vivida no Cubal. Se algum leitor reconhecer pessoas, lugares ou detalhes que possam ajudar a completar esta história, terei muito gosto em receber o seu contributo.
https://cubal-angola.blogspot.com
Bela recordação caro Ruca. Engraçado que naquele tempo chamávamos de Simão a qualquer macaco. Abraços
ResponderEliminarObrigado , amigo Rodrigo . Tinha vaga ideia daquilo que afirmas. Julgo que os meus avós Flóridos também tiveram um, e julgava estar a fazer confusão, mas também era Simão!! :-). Forte abraço querido amigo.
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