05 maio 2026

Um domingo no campo da aviação do Cubal


 

Um domingo no campo da aviação…

onde o céu começava ali ao lado


O nosso Mini Moke, num domingo de passeio pelo Cubal.

Há memórias que o tempo não apaga. Ficam guardadas em tons de sépia, no recorte nítido de fotografias que contam, em silêncio, a história de uma vida cheia.

Estas levam-nos ao final da década de 60, talvez já à porta dos anos 70, num Cubal que fervilhava de cor e de trabalho, mas que sabia guardar o domingo para a pacatez dos afetos.

O ritual começava quase sempre da mesma forma: o motor do nosso fiel Mini Moke a despertar. Um carro simples, aberto ao vento e à paisagem, perfeito para aqueles dias sem pressas. Ao volante, a minha mãe, Júlia, recentemente encartada, com aquele misto de concentração e orgulho de quem começava a conquistar o volante… e mais um pedaço do mundo.

A caminho do campo de aviação, num tempo em que o domingo parecia mais comprido.

É fácil imaginar que, nesse trajecto, o rádio nos fizesse companhia. O Emissor Regional do Cubal, sempre presente, e talvez a rubrica dos discos pedidos a encher o ar. E, quem sabe, a voz de Nelson Ned a cantar baixinho:

“O que é que você vai fazer no domingo à tarde… passear por aí…”

Como se aquela canção tivesse sido feita para nós.

A bordo, a alegria era simples e verdadeira. O meu pai, Raul, presença firme e tranquila, pilar de todas as jornadas. Eu, ainda miúdo, entre a curiosidade e o encanto de tudo aquilo. E a senhora Gina, chegada há pouco tempo de Portugal Continental para ajudar a minha mãe, a descobrir connosco aquela terra que também começava a ser sua.

Talvez o meu tio Joaquim estivesse por perto, mesmo não tendo ficado preso no instante das fotografias. Porque nestes dias, quase sempre, ninguém ficava de fora.





O campo de aviação do Cubal e a máquina voadora que alimentava a nossa curiosidade.

O destino era o mesmo de tantas vezes: o campo de aviação do Cubal.

Durante a semana, ouvíamos ao longe o ronco das “máquinas voadoras” que cruzavam os céus para desinfestar as plantações, sobretudo o algodão, o verdadeiro ouro branco da região. Mas ao domingo, a máquina repousava. E isso permitia-nos chegar perto, olhar sem pressa, quase tocar naquele sonho de voar.

Ali, o mundo mudava de escala.

A terra batida, o cheiro seco do mato, o silêncio cortado apenas pelo vento ou por uma conversa distante. E depois, o avião. Imenso. Quase irreal. Um objeto que parecia deslocado daquela paisagem, mas que fazia parte dela como tudo o resto.

O avião em repouso, depois de durante a semana cruzar os céus do Cubal.

Aproximávamo-nos devagar, com respeito quase instintivo. Havia sempre aquele momento de pausa, de olhar demorado, de perguntas que ficavam no ar. Como voa? Para onde vai? Como consegue desaparecer no horizonte?

E, no meio de tudo isso, estava o essencial: estarmos juntos.

As fotografias mostram gestos simples, olhares curiosos, pequenos instantes. Mas por trás delas está um tempo em que a vida se fazia de coisas aparentemente pequenas, mas profundamente significativas.

O Cubal era, de facto, vida e cor. 

Mesmo quando hoje o vemos em tons de sépia.

Um Cubal eterno, entre o pó da estrada, o brilho do avião e a memória dos afetos.

Ficam estes registos de um Cubal eterno, onde o pó da estrada, o som de um rádio ao longe e o brilho do alumínio de um avião se misturam numa memória que não se apaga.

E talvez seja isso que mais importa:
a certeza de que, num domingo qualquer, entre um Mini Moke, um avião pousado na terra e uma canção no ar… éramos felizes sem precisar de saber.


Ruca
Cubal Angola Terra Amada!
https://cubal-angola.blogspot.com

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