07 maio 2026

O Cubal e a arte de guardar afetos

 O Cubal e a arte de guardar afetos 

Há fotografias que valem mais do que mil palavras. E depois há aquelas que conseguem guardar dentro delas o ambiente inteiro de uma época. Esta é, sem dúvida, uma dessas imagens.

Filomena Maria com o seu vestido de papel

No Cubal dos anos 60, ou talvez já dos primeiros anos 70, vivia-se com uma intensidade muito própria. Havia bailes, festas, concursos, noites de convívio e uma criatividade genuína que hoje quase parece impossível imaginar. Tudo era feito com entusiasmo, dedicação e aquele espírito comunitário que transformava qualquer iniciativa num acontecimento memorável.

Nesta fotografia vemos a jovem Filomena Maria, elegantemente apresentada num vestido artesanal feito exclusivamente com recortes da revista Notícia, uma publicação incontornável na época. O resultado, para aqueles anos, era extraordinário: criatividade, paciência e imaginação transformadas numa verdadeira peça de espetáculo.

O cenário noturno, o cuidado do penteado, o ramo decorativo e a pose tímida, mas orgulhosa, transportam-nos imediatamente para os salões do antigo Clube Ferrovia ou, talvez, do Clube Recreativo do Cubal. Quem sabe se algum dos nossos leitores conseguirá identificar com precisão o evento, o ano ou até outras pessoas presentes nessa noite?

“Com amizade ofereço esta fotografia para que recorde sempre a sua amiguinha Filomena Maria”

E é precisamente aqui que a imagem ganha ainda mais alma. Esta fotografia foi oferecida à minha querida mãe, Júlia, e guardada ao longo de décadas, como tantas memórias que atravessaram continentes, mudanças de vida e o próprio tempo.

Tenho a sensação, embora sem total certeza, de que a minha mãe poderá ter ajudado a Filomena a preparar-se para essa noite, talvez no penteado ou nos últimos retoques de beleza. No Cubal, as amizades construíam-se também nestes pequenos gestos de proximidade e entreajuda.

O mais bonito nestas imagens antigas não é apenas aquilo que mostram; é aquilo que nos fazem sentir. Olhar para esta fotografia é recordar um Cubal vivo, elegante, criativo e profundamente humano. Um lugar onde a amizade tinha valor, onde as pessoas se conheciam pelo nome e onde uma simples fotografia oferecida “com amizade” podia sobreviver mais de cinquenta anos e continuar hoje a emocionar-nos.

Talvez alguém se lembre deste concurso, desta noite especial ou destes vestidos feitos a partir da revista Notícia, que durante tantos anos entrou nas casas de tantos de nós. E talvez seja precisamente isso que torna o nosso blogue tão importante: impedir que estas pequenas grandes memórias desapareçam em silêncio.

Ruca

Cubal Angola Terra Amada!

cubal-angola.blogspot.com

Se reconhecer esta imagem, o evento ou as pessoas nela retratadas, partilhe connosco nos comentários. A memória do Cubal continua a construir-se entre todos.

Atualização: A memória completa-se

Após a partilha desta crónica, a Mena Costa trouxe-nos as peças que faltavam para este puzzle de afetos. Confirmou-se o cenário: este momento mágico aconteceu no Clube Recreativo do Cubal, por ocasião de um Carnaval.

"Foi a tua mãe que me penteou, sim. Fiquei comovida com a descrição da foto. Até a ser gratas e gentis nos ensinavam a ser, as mães, pois possivelmente foi uma forma de agradecer à tua mãe ter posto a sua princesa tão bonita." — Mena Costa

Esta confirmação transforma a suposição em certeza histórica e emocional. Fica o registo daquela que é a maior verdade destas imagens: as nossas mães eram as verdadeiras artistas. Com mãos de fada e uma generosidade sem limites, não só criavam beleza, como nos ensinavam o valor da gratidão e da amizade — valores que, como vemos nesta dedicatória, resistiram a mais de meio século.

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Ruca